Identidades Latinoamericanas no discurso midiático da TAL TV

Rodrigo Gabrioti

É praticamente impossível pensar que atualmente qualquer indivíduo esteja à margem de informação e conhecimento. Ao considerar a linha do tempo dos meios de comunicação, rapidamente nota-se que cada suporte se afastou de suas limitadas condições, de seu alcance e caráter locais para aderir a esta que é a Era da Convergência. Cada elemento reúne peculiaridades de seu processo absorvidas em plataformas comuns onde texto e imagem se complementam. Seria possível pensar que, graças ao advento da tecnologia, certos conteúdos seriam acessados sem maiores complicações? No curso da História, receber determinadas informações se dava apenas pela difusão dos tradicionais meios de comunicação. Agora é possível qualquer indivíduo intermediar o próprio acesso. Nesse contexto, surge um meio de comunicação convergente que possibilita a socialização imediata do acesso.

O objetivo deste artigo é analisar como a TAL TV – Televisión América Latina – exerce sua convergência e difunde produções audiovisuais no contexto latinoamericano. A TAL TV é uma rede de intercâmbio e divulgação da produção audiovisual dos 20 países da América Latina. Sem fins lucrativos, reúne centenas de associados: canais públicos de TV, instituições culturais/educativas e produtores independentes. Caracteriza-se, oficialmente, como uma web TV, um banco de conteúdo audiovisual e uma produtora de vídeo. É possível justificar essa funcionalidade por meio de Barbero (2005, p. 6):

La convergencia tecnológica entre el sector de las telecomunicaciones y el de los medios de comunicación –el entrelazamiento satelital de la televisión con su acceso directo o por cable, y digitalmente con internet – está transformando las figuras tradicionales de la propiedad, del funcionamiento y gestión de los medios audiovisuales.

A proposta da TAL TV é elaborar conteúdos para que os vizinhos da região se conheçam um pouco mais. Hoje, possui um acervo de mais de 7 mil programas, produzidos por profissionais latinoamericanos. Tudo dividido em 6 gêneros (Curtas, Documentários, Especiais, Musicais, Produções Originais e Séries) e 11 canais (Arte, Comportamento, Culinária, Cultura, Curtas, Ecologia, Educação, História, Humor, Literatura, Música e Dança e Viagens), além de 9 programas especiais.

É justamente por meio de uma série especial que pretendemos tratar, nas páginas seguintes, as identidades latinoamericanas no discurso midiático da TAL TV. Os países selecionados para análise são os fundadores do Bloco Mercosul: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Nosso objeto selecionado é a Série Especial “Os Latinoamericanos”. De acordo com a definição do site da emissora3, uma produção original de 12 episódios da TAL, realizada em parceria com jovens diretores e produtoras independentes com o objetivo de estabelecer um panorama dos elementos que nos distinguem e ao mesmo tempo nos identificam como latinoamericanos. Cada documentário busca a identidade de uma nação através do olhar particular de um diretor em seu país. Dos quatro acima mencionados, apenas um ainda não teve sua identidade cultural produzida pela TAL: o Brasil. Para trabalhar essa questão na principal nação do eixo recortado, buscaremos em Alfredo Bosi uma explicação para a cultura brasileira, ou melhor, para as culturas brasileiras.

Entretanto, antes de partirmos para as análises mais aprofundadas de cada produção audiovisual, é recorrente estabelecer alguns conceitos de cultura, identidade e integração, afinal, abordaremos especificidades que representam as identidades e culturas desses países por meio das quais pensaremos a integração, no sentido de aplicar essas produções audiovisuais ao nosso conhecimento e apreensão.

Quando buscamos essa leitura das produções da TAL TV a um contexto cultural, logo, podemos aplicar nesse contexto, os conceitos de tecnocultura, sujeito e objeto, todos de Muniz Sodré (1996). Ele vai entender a tecnocultura como a instância de produção de bens simbólicos ou culturais por meio de dispositivos maquínicos de estetização ou culturalização da realidade. Ou seja, cada documentário a respeito de um país retrata os bens simbólicos como partes da cultura. Essa divulgação se dá por meio de uma técnica, neste caso, a audiovisual, cuja valorização são as imagens. O discurso é onde sujeito e objeto vão aparecer. De acordo com o teórico, o primeiro em situação de busca pelo idêntico ao passo que o segundo carrega a atribuição de significados e funções.

Os significados, em especial, são os sinalizadores da Cultura que resultam na identidade. Segundo Barañano, Garcia, Cátedra e Devillard (2007, p. 183), “La identidad posee una dimensión individual, es um atributo del individuo”. O que cada povo focalizado nos documentários latinoamericanos da TAL TV pensa é o equivalente à sua crença cultural. Tanto que Hall (2006, p. 50) define: “Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos”.
As identidades são uma apreensão individual porque cada indivíduo vai compreender seu entorno de uma maneira. Segundo Augé (1994, p. 50-51):

As coletividades (ou aqueles que as dirigem), como os indivíduos que a elas se ligam, necessitam simultaneamente pensar a identidade e a relação, e, para fazerem isso, simbolizar os constituintes da identidade partilhada (pelo conjunto de um grupo), da identidade particular (de determinado grupo ou determinado indivíduo em relação aos outros) e da identidade singular (do indivíduo ou do grupo de indivíduos como não semelhantes a nenhum outro).

Mais adiante, pretendemos responder o ideário de Augé (1994). Os grupos mostrados caminham para uma identidade partilhada, particular ou singular? Como aponta Kuper (2002, p. 22), “todos descobrem que têm uma cultura”. Essa cultura pode se manifestar de diferentes formas: religiosa, no êxodo para a cidade grande, midiática, etc… Ainda segundo Kuper (2002, p. 35):

A ideia de cultura podia realmente reforçar uma teoria social de diferença. Cultura podia ser um eufemismo para raça, estimulando um discurso sobre identidades raciais enquanto aparentemente abjurava o racismo. Os antropólogos podiam distinguir sistematicamente raça e cultura, mas na linguagem popular “cultura” se referia a uma qualidade inata. A natureza de um grupo era evidente a olho nu, expressada igualmente pela cor da pele, pelas características faciais, pela religião, pelos princípios morais, pelas aptidões, pelo sotaque, pelos gestos e pelas preferências de alimentação.

Diferenças assim são citadas por Eagleton (2003) como realce das diferenças de cultura. O autor vai entender que se trata de algo nato, pois, “[…] bom é tudo o que surge autenticamente das pessoas, não importa quem sejam elas”. (EAGLETON, 2003, p. 27)

De modo geral, entendemos que a definição de Kuper é a que mais se aproxima da realidade. Todos descobrem ter uma cultura porque ela é passada de geração para geração, uma herança de hábitos e costumes adaptada, de acordo com o tempo, aos contextos vigentes. A identidade é algo que faz o indivíduo se sentir como parte integrante de uma nação, por exemplo, enquanto a cultura pode ser alvo de apropriações. Segundo Augé (1994, p. 53):

[…] o lugar é necessariamente histórico a partir do momento em que, conjugando identidade e relação, ele se define por uma estabilidade mínima. Por isso é que aqueles que nele vivem podem aí reconhecer marcos que não têm que ser objetos de conhecimento.

Se considerarmos o contexto que abordaremos, temos de levar em conta uma cultura da tecnologia, uma cultura híbrida em que formas conhecidas de recepção se transformaram em novas demandas. Nas palavras de Marques de Melo (1998, p. 25), “permanecer isolados dentro das fronteiras nacionais, atemorizados pelos velhos fantasmas dos imperialismos, é optar por estratégias suicidas”. (MARQUES DE MELO, 1998, p. 25)

A transmissão cultural é uma das preocupações de Thompson (1995) que considera isso um “[…] processo pelo qual as formas simbólicas são transmitidas dos produtores aos receptores” (1995, p. 220). O autor leva em consideração que essa transmissão se sustenta por uma série de características que se resume ao meio técnico de transmissão, aparato institucional de transmissão e o distanciamento espaço-temporal implicado na transmissão.

O meio técnico de transmissão é, segundo Thompson (1995), como uma forma simbólica é produzida e transmitida dentro de um sentido de fixação da mensagem. O aparelho institucional é “[…] um conjunto específico de articulações institucionais dentro dos quais o meio técnico é elaborado e os indivíduos envolvidos na codificação e decodificação das formas simbólicas estão inseridos”. (1995, p. 224). E, por último, o distanciamento espaço-temporal corresponde ao “[…] desligamento dessa forma, em vários graus, do contexto de sua produção; ela é distanciada de seu contexto, tanto espacial como temporalmente, e inserida em novos contextos que podem ser localizados em diferentes tempos e locais”. (1995, p. 225)

Como podemos notar, Thompson (1995) estabelece as relações da cultura com a intervenção dos meios de massa. No caso da TAL TV, tais características se associam. Afinal, a TAL é um meio de comunicação e o que analisamos, por meio do audiovisual, são seus produtos culturais. Não se pode deixar de observar que os media são construtores da cultura.

Nesse sentido em que a comunicação possibilita a todos que acessarem o sítio da TAL terem conhecimento de produtos audiovisuais, é por onde permeamos a ideia de integração. Partindo do pressuposto que os países selecionados para nossa análise se compuseram a fim de buscar uma integração econômica, há duas décadas, procuramos avaliar se o mesmo ocorre no sentido cultural de modo que cada nacionalidade compreendida nesse contexto entenda, reconheça, se identifique ou se diferencie dos demais países mostrados. Como definem Barañano, Garcia, Cátedra e Devillard (2007, p. 193):

[…] “intimidad cultural”, aquella peculiar sensación de pertenencia e confianza cuasifamiliar basada en “el reconocimiento de aquellos aspectos de la identidad cultural que, aunque desde fuera sean considerados como fuente de desconcierto, proveen a los enterados con la promesa de una sociabilidad compartida. (BARAÑANO, GARCIA, CÁTEDRA, DEVILLARD, 2007, p. 193)

A comunicação pode facilitar essa sociabilidade compartilhada e a intimidade cultural. A primeira condição com mais chances pelo meio técnico de transmissão. Já a segunda possibilidade vai penetrar mais pelas individualidades porque se sustentará pelo pertencimento. Esperamos que por seu sentido de troca, a comunicação possa exercer sua função em tal sentido embora seja compreensível também que se trata de uma individualização cultural gerada por reconhecimento dos bens simbólicos e, consequentemente, as formações de cada indivíduo. Para Gerbner (1967, p. 58), “Comunicação, no sentido “humanizador” mais amplo, é a produção, percepção e entendimento de mensagens portadoras das ideias humanas do que existe, do que tem importância e do que está certo”.

É importante considerar esse tripé de Gerbner – produção, percepção e entendimento de mensagens – já que qualquer comunicação é intencional. A mensagem carrega um ideal de quem a produz com objetivo de provocar modificação no receptor. Seja no modelo tradicional (o emissor envia mensagem ao receptor) ou no modelo tecnológico (em que emissor e receptor trocam continuamente de papel no fluxo da informação), é certo que nenhum conteúdo se dissemina sem uma intenção. As análises que nos propomos a fazer dessa série cultural, “Os Latinoamericanos”, é um recorte da cultura, mas, com roteiros que vão definir qual a mensagem construída que pode ecoar ou provocar reação em quem pretende encontrar por meio disso a identidade. Reforça Gerbner (1967, p. 73): “o cultivo de padrões de imagens dominantes é a principal função das organizações de comunicação dominantes em qualquer sociedade”.

A temática também se explica em Charaudeau (2007). Ao tratar das instâncias de produção e recepção, é abordado que o público não se deixa seduzir facilmente e que segue seus próprios ideais. Sobre a possível relação de troca, o autor considera a ausência física dos receptores. “[…] a instância midiática não tem acesso imediato a suas reações, não pode dialogar com eles, não pode conhecer diretamente seu ponto de vista para completar ou ratificar a apresentação da informação”. (CHARAUDEAU, 2007, p. 79).

Alguns inconvenientes podem ser apontados preliminarmente na TAL TV. O primeiro deles é a dificuldade de reconhecimento da Web TV como veículo de comunicação. Como conceitua Bucci (2011):

A internet não é televisão, não é rádio, não é jornal, nem revista, assim como não é correio ou telefone. Ela contém tudo isso ao mesmo tempo – mas contém muito mais que isso. Existem canais de TV e de rádio na internet, é bem verdade. Os jornais estão quase todos online, bem como as revistas, sem falar no correio eletrônico: as pessoas trocam mensagens, como trocavam cartas.

Os produtos audiovisuais da TAL circulam pelos canais públicos cuja audiência é ínfima. Além disso, embora na Era da Convergência, o acesso ao sítio pode ser restrito porque ainda existe público com dificuldades de adaptação tecnológica bem como de acesso. Há a questão cultural de que, para muitos, televisão mantém seu suporte tradicional. E ao pensar nessa liberdade da Internet, raros serão aqueles que vão se interessar por conteúdos desse gênero.

Ao que corresponde às produções audiovisuais da TAL TV, selecionadas para este artigo, antes de introduzi-las, apresentamos suas fichas técnicas. Vale reforçar que o Brasil ainda não conta com um vídeo sobre seus aspectos culturais no cenário latinoamericano. O vídeo Los Paraguayos tem duração de 54 minutos com a direção de Marcelo Martinessi. Chama-se Das origens guarani ao Paraguai contemporâneo: uma história de contrastes. Do Uruguai, a diretora Mariana Viñoles produziu Los Uruguayos, Palavras reveladoras de um país pequeno por natureza e grande no espírito. O vídeo tem a duração de 52 minutos e 40 segundos. Luís Esnal, em Los Argentinos: 13 mil km de diversidad y conflicto, retratou a cultura do país em um vídeo com 54 minutos de duração.

A Produção Audiovisual Paraguaia

O documentário que retrata o Paraguai começa com os indígenas em meio à área rural. Aliás, o país carece de estrutura, em especial, nas zonas mais afastadas. Com trilha musical adequada ao ambiente, o vídeo traz o depoimento de um representante desse povo afirmando que ali se mantêm rituais e a antiga cultura. O roteiro explora o conceito de “terra sem mal”, pois, para os guaranis, morrer não é ideal. Essa crença é reforçada pelos depoimentos de um sacerdote jesuíta, um antropólogo e da ministra do Turismo do Paraguai. Todos com acentuado apelo local, reforçando o sentido dessas crenças. Os próprios guaranis explicam seus rituais dentro de uma contextualização histórica que traz como exemplo o fato deles entenderem a colonização da América como um mal.

Um sentido de hibridização cultural se encontra em Yaguarón onde estão as missões franciscanas que adaptam a música europeia com a língua local. Essa língua é o guarani, umas das 17 que o paraguaio fala. Resultado de uma formação de muitos povos, a cultura guarani é decisiva para a formação do Paraguai. É um povo que acredita na perpetuação da raça e confia muito em pedidos religiosos pelos quais agradecem ao serem alcançados. A abordagem do vídeo sobre identidade, no Paraguai, se refere a uma construção a partir do que o paraguaio é e o que ele deseja e quer ser.

Um Paraguai de lutas sangrentas também é revelado na produção dirigida por Marcelo Martinessi, principalmente, no depoimento de um nacionalista convocado para a batalha da Paz do Chaco. O território de Humaitá é o símbolo da resistência de guerra do Paraguai, que no caráter da luta, aponta para um grande patriotismo expressado na seguinte frase do Marechal Solano Lopez: “Morro por minha pátria” ou “Morro com minha pátria”.

Outra faceta revelada, no vídeo, é o Paraguai feminino. Há imagens de uma artista passeando por uma feira em contraste com uma ceramista da zona rural. O confronto entre rural e urbano. Aliás, enfocam-se as imagens de Asunción, a capital do país, onde charretes dividem espaço com ônibus e carros. Aplicamos a isso Canclini (2006, p. 285): “sem dúvida, a expansão urbana é uma das causas que intensificaram a hibridação cultural”. São as personagens que conduzem esse trecho de narrativa com a proposta de mostrar que, mesmo em condições adversas de produção, estão engajadas na construção do país. O feminismo paraguaio está no centro urbano e nos lugarejos. Em determinado trecho, exibe-se uma cantora sobre um burro com imagem sobreposta a uma senhora que usa tal animal como meio de transporte. O resultado dessa abordagem feminista é que a mulher paraguaia é independente tanto profissional como pessoalmente. Um exemplo mostrado para justificar isso é que o país possui um grande número de mães solteiras.

Uma informação trazida é de que o Paraguai forma-se por 80% de analfabetos e 20% de uma burguesia ignorante. Nessa ilha rodeada de terra, o escritor Carlos Villagio define o paraguaio com espírito de isolamento, um conceito atribuído pelos paraguaios a Alfredo Stroessner que fez questão de deixar o Paraguai sem cabeças pensantes. Sinal dos 35 anos da Ditadura Militar, rígida no país, pelas perseguições e inúmeros mandos e desmandos autoritários. A música e a pintura foram os movimentos mais fortes de expressão contra o Regime.

Como se assumem os paraguaios? Integrantes de um país convergente a todas as nações com povos hospitaleiros e amigos embora aqueles que estão mais distantes da urbanização sintam uma dificuldade de reconstrução atribuída particularmente ao sentido do “fazer” das autoridades.

A Produção Audiovisual Uruguaia

É com um tema de Carlos Gardel, o mito do tango, que começa o documentário sobre o Uruguai. A música ecoa por áreas da zona rural uruguaia por meio de uma emissora de rádio. O local escolhido? Tacuarembó, no interior do país, local de nascimento do cantor para aqueles que o entendem como uruguaio4. Uma família de produtores rurais acredita no conterrâneo que levou o gênero musical rioplatense para o mundo. Logo a obra dirigida por Mariana Viñoles exibe um programa de rádio no qual a equipe de produção do documentário concede uma entrevista sobre a produção. Em muitos momentos, Viñoles intervém como “narradora” para dar sentido de intervenção junto ao entrevistado.

As imagens dão a noção de traçar um perfil dos uruguaios. Estão em close, inclusive, com suas auto definições descritas por representantes selecionados do Club Atlético Cerro: “amável, cordial, abertos ao diálogo, à espera de estrangeiros”. Assim se julgam. As personagens são muito exploradas, nesse documentário, para traduzir uma ideia, digamos, mais real do que é o uruguaio. O interior do Uruguai representa um lugar tranquilo. Ruas de paralelepípedo e carros antigos estão em constante valorização do discurso imagético, em baixa definição e algumas vezes desfocado, da TAL TV. Mas há outra condição interessante no que se refere às imagens: muitas delas, na edição, foram construídas sob uma ideia de retrato fotográfico, ou seja, uma “paralisação” do tempo que entra para a eternidade como momento único.

A primeira manifestação mais crítica surge das palavras de um artesão que julga o governo de esquerda do país como o causador de sofrimentos. Aí entra a noção de individualidade atribuída por Barañano, Garcia, Cátedra e Devillard (2007). Enquanto um faz críticas, uma mulher preparando uma carne, na cozinha, diz que não troca sua nação por nenhuma outra.
A cidade de Rivera desponta como um local diferenciado do país onde se fala portunhol (junção do português com o espanhol) e há Carnaval. Tanto que o entrevistado grava nesse dialeto que contempla, inclusive, alguns vocábulos em Língua Portuguesa.

Quando o roteiro sai do interior, segue para a capital Montevideo. A abertura é com imagens da Avenida 18 de Julio, a principal da cidade. A primeira abordagem é um contraste de estilo de vidas. A narrativa compara um advogado que trabalha em um escritório a um estudante que vai deixar o país rumo à Espanha onde cursará pós-graduação em Comunicação. Isso já retrata um sentimento comum a todos os uruguaios: ser um país mais velho por falta de oportunidades aos jovens. O garçom de um café, entrevistado para o documentário, reforça isso e diz que quando o uruguaio trabalha em seu país é preguiçoso. Quando sai, se torna trabalhador.

Numa paixão muito similar à de brasileiros e argentinos, o uruguaio também aprecia o futebol. O documentário aborda um jogo, o entorno do estádio em dia de partida, pessoas ouvindo transmissão de rádio e torcedores acompanhando confrontos em bares.

Em suma, o documentário que a todo instante reforça pela linguagem sua proposta de revelar quem são os uruguaios revela um país bom sentimentalmente e complicado economicamente. Uma zona rural com construções precárias, carentes de estrutura. Há lugares onde ainda se cozinha com fogão de lenha. O ideário de tranquilidade é muito frequente. Acentuado no interior, também se reforça pelas ruas de Montevideo, capital cujo consciente coletivo imaginário nos coloca em um local moroso, sem agito.

A Produção Audiovisual Argentina

O esforço de produção do documentário é registrado logo nos primeiros minutos. Logo após as imagens de Buenos Aires, é exibido um making off de filmagens em preto e branco. Cinco documentaristas percorreram as províncias argentinas, durante 1 mês, totalizando 13 mil quilômetros viajados. Isto corresponde à introdução da proposta do diretor Luís Esnal em mostrar a atual cultura argentina.

O primeiro destino é a província de Entre Rios mais precisamente em Basavilbaso, a primeira colônia de judeus da Argentina. Ali mostram a intelectualidade do judeu e recuperam os atentados de julho de 1994 contra uma associação da raça em Buenos Aires.

A viagem continua e para em Posadas, na província de Misiones onde a influência cultural vem do mundo árabe. Misiones era um território nacional, e não uma província, por isso o grande número de imigrantes que foram para lá. Uma constituição de um processo de hibridação cultural. Nas origens, os habitantes de lá falavam guarani. Aliás essa cultura nativa tenta se manter em uma aldeia guarani próxima às Cataratas do Iguaçu onde o documentário registrou e mostrou o costume, argentino e uruguaio, de tomar o mate.

O terceiro destino é Santiago Del Estero. Em meio ao nada, o documentário reproduz seu making off e retrata uma família de carvoeiros que ali vivem. Na província de Jujuy, em Humahuaca, destaque para a cantora Maryta. Com sua música tradicional local, ela estabelece a diferença de seu povoado com Buenos Aires. Segundo ela, a chegada na cidade grande indica que cada novo habitante leva sua cultura ao passo que a chegada ao local pequeno, como Jujuy, representa se integrar à cultura. O roteiro termina, nesse local, com imagens de um baile de Carnaval. Tilcara e Salina Grande também são abordados. Na primeira, uma aparência de local desértico cuja formação, antes da independência argentina, se baseava no Chile, Peru e México e suas formações indígenas. A segunda localidade tem como fonte de renda a extração de sal branco para venda e suas relações culturais são mais próximas da Bolívia devido a aproximação geográfica.

A província de Salta é o primeiro lugar mais moderno abordado no documentário. Há uma forte percepção da cultura religiosa. Lá existem edificações, carros, mais gente pelas ruas. Um local onde a mestiçagem começa pela culinária com a produção de empanadas. Um detalhe curioso é que, mesmo em espanhol, o áudio original é legendado por conta dos dialetos originados pelo idioma.

Em Tucumán onde a Independência da Argentina foi declarada, a cultura se preserva como memória na Casa da Independência. Assim como Salta, nota-se uma província mais bem estruturada com prédios, carros e mais gente nas ruas. Mendoza se caracteriza pela cultura do vinho, introduzido por jesuítas do Chile que originalmente produziam a bebida para missas. Assim surgiu o Malbec. Com a presença significativa da imigração italiana, essa cultura aumentou e se tornou como um dos cartões de visita da Argentina.

Neuquén tem um dialeto destacado: o “mapuche”. Lá está reunido um povo com espírito de manifestação, especialmente, por meio de pinturas em paredes. Mais de 24 povos dessa província se caracterizam pela relação dominantes versus dominados. O êxodo rural se deu acentuadamente em busca de trabalho e estudo. Há uma hibridação cultural de convivência paralela: a argentina e a chilena. Na província de Rio Negro, destaques para a Patagônia e Bariloche. Novos centros de turismo do país, a Patagônia tem uma imigração centro-europeia recente com forte traço da influência alemã. Em termos de paisagem, o documentário a define como paradisíaca. Bariloche também segue essa tendência com belezas naturais explorados tematicamente pelo turismo. Uma de suas especialidades é a produção de chocolate. Em Chubut, uma cultura em definição quanto a território. Um plebiscito decidiu se a população local seria argentina ou chilena. Venceu, na escolha, a Argentina. De característica interiorana, aspira ser a Patagônia. Navios transatlânticos já passaram pelo local onde os habitantes entendem que a chegada de pessoas gera novas contribuições para o desenvolvimento.

Para finalizar o roteiro, a viagem termina na cidade grande: a província de Buenos Aires. Na capital, tudo começa pelo pitoresco bairro de La Boca, a porta de entrada para o emigrante. Suas principais atrações são os cortiços onde esses aventureiros do interior se hospedavam, o Club Atlético Boca Juniors e seu estádio, La Bombonera. No discurso da TAL TV, o argentino se define como um apaixonado sempre posicionando-se a favor ou contra. Os problemas de toda a cidade grande também são abordados. Caso das favelas. São muitas, porém, a obra trata de que esse ambiente é um estereótipo: 50% marginais, 50% com chances de ser bandidos. Ressalta-se muito a formação espanhola da Argentina. Os entrevistados apontam que ou se ia para a Argentina ou se ia para qualquer outra parte da Espanha. O imigrante – que vinha em busca de trabalho – entrevistado credita a isso uma destruição de culturas. Quase perto do fim, é abordada rapidamente a questão do Golpe Militar e para terminar em alto astral a imagem mais típica desse povo: um baile de tango, patrimônio cultural de Buenos Aires.

Sem a Produção Audiovisual Brasileira

A subvenção da TAL TV vem do governo brasileiro ao patrocinar suas produções com legislação específica de financiamento à cultura. Nos vídeos da Argentina e do Paraguai aparece o patrocínio da PETROBRAS. Mas nem isso fez com que fosse produzido, nessa série “Os Latinoamericanos” um audiovisual a respeito do Brasil, principal país da América Latina e também do nosso recorte de análise. O site da TAL TV, em seu texto de apresentação da coletânea de produções, anuncia para breve o vídeo de “Os Brasileiros”.

Como nos falta esse repertório para análise, resolvemos buscar em Bosi (1987), as explicações para nossa identidade cultural. O autor não atribui ao Brasil uma cultura única, pois, aqui há um processo de múltiplas interações e oposições no tempo e no espaço. Segundo ele (1987, p. 7), “[…] não existe uma cultura brasileira homogênea, matriz dos nossos comportamentos e dos nossos discursos”. Toda essa multiplicidade com diversos ritmos das culturas no Brasil, na visão de Bosi, leva nossa cultura ao caos. Dentro dessa gama de ofertas, Bosi (1987, p. 10) acredita que “[…] da corrente de representações e estímulos o sujeito só guardará o que a sua própria cultura vivida lhe permitir filtrar e avaliar”. Por essa leitura, como deveríamos pensar as representações culturais dentro de um roteiro audiovisual do Brasil para essa Série “Os Latinoamericanos”? Se comparado aos que analisamos, arriscamos dizer que seria um produto muito parecido a “Los Argentinos” que buscou mostrar a diversidade daquele país. Certamente sobre o Brasil muitos documentários, nesse sentido, podem ser produzidos com temáticas de Carnaval, Futebol, Samba, Natureza, Diferenças idiomáticas, etc…

Considerações Finais

A Era da Convergência consolida a Sociedade da Informação por meio do acesso, possibilitado, em especial, por uma linguagem de dados da tecnologia. Cultura e Tecnologia formam a Tecnocultura, conceito de Sodré, que se solidifica na intenção da TAL TV ao reproduzir séries culturais latinoamericanas.

As produções da série analisada, neste artigo, reforçam que a Identidade é realmente um conjunto de apreensões individuais. Entre os argentinos, percebe-se a diversidade cultural construída por estratégias de aproximação geográfica; a hibridização provocada pelos imigrantes; os reflexos culturais do êxodo; a convivência dual entre tradicional e moderno nas províncias; o patriotismo exacerbado e o sonho mais os problemas por quem escolheu a cidade grande (Buenos Aires).

Os uruguaios identificam um país rural, de vida simples onde há medo das mudanças e quem opta por uma vida melhor vai para o exterior, pois, em sua nação falta perspectiva. Já os paraguaios lutam para preservar a cultura por meio da memória. Seu povo, subjetivo, é homogêneo ao passo que o país é pobre, dependente da economia do primeiro setor. Busca quais caminhos seguir. Aliás, isto se reforça na linguagem do documentário quando a narrativa se associa a imagens de um barco no rio e de um trem. O que há em comum é que todos sentem orgulho de ser paraguaios.

Os brasileiros não estão retratados, mas sabemos que se trata de um país com cultura heterogênea, com um povo alegre que supera as dificuldades existentes – em especial as sociais geradas pelo desequilíbrio da distribuição de rendas – mesmo sendo, atualmente, uma nação emergente.

Em todo esse cenário recortado da série “os Latinoamericanos” mais os conceitos de Identidade tratados por Augé (1994), observa-se que pelo discurso da TAL TV e de um teórico brasileiro, Argentina e Brasil têm uma identidade partilhada, isto é, de certa forma se relacionam. Em especial, pela diversidade e avanços como as diferenças culturais e a busca da cidade grande, esta mais diluída no Brasil e mais concentrada na Argentina. O Paraguai possui uma identidade particular, pois, almeja chegar a algum lugar em relação aos outros. O Uruguai possui uma identidade singular. Um país achatado tanto em tamanho quanto em economia por falta de perspectivas de desenvolvimento.

REFERÊNCIAS

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BARBERO, Jesús Martin. Cultura y Nuevas Mediaciones Tecnológicas. In: América Latina: otras visiones de la cultura. Bogotá: CAB, 2005.
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CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Edusp, 2006.
CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2007.
EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. São Paulo: UNESP, 2003.
GERBNER, George. Os meios de comunicação de massa e a Teoria da Comunicação Humana. In: DANCE, Frank (org.). Teoria da Comunicação Humana. São Paulo: Cultrix, 1967.
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KUPER, Adam. Cultura: a visão dos antropólogos. Bauru: EDUSC, 2002.
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MARQUES DE MELO, José. Desafios Comunicacionais no Mercosul. Comunicação e Sociedade. São Paulo, v. 13, p. 19-25, set-dez. 1998.
SODRÉ, Muniz. Reinventando a cultura: a comunicação e seus produtos. Petrópolis: Vozes, 1996.
THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.

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