I Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais

Coordenação Afonso Fleury, Luiz Ojima Sakuda, José Henrique Dell’Osso Cordeiro

2014 – BNDES – 1º Censo da Industria Brasileira de Jogos Digitais e Vocabulario

BUILDING AN ANALYTICAL FRAMEWORK FOR THE STUDY OF EMERGING COUNTRY MULTINATIONALS’ OPERATIONS MANAGEMENT

Afonso Fleury, Yongjiang Shi, Silas Ferreira Junior, Jose H. D. Cordeiro

2013 – Building an analytical framework for the study of emerging country multinational’s operation management – ICPR 2013 

An Analytical Framework for Emerging Country Multinationals’ International Operations Management

Afonso Fleury, Yongjiang Shi, Silas Ferreira Junior, Jose H. D. Cordeiro

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2013 – An Analytical Framework for Emerging Country Multinationals’ International Operations Management – CIM 2013.pdf
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Telejornalismo Brasileiro: Uma Linguagem em Mutação

Rodrigo Gabrioti

A reformulação da linguagem do telejornalismo brasileiro aparece como uma das realizações midiáticas deste século predominado pela tecnologia. A cultura midiática que se forma modifica o modelo anterior e propõe outro novo modelo para emissores e receptores, cada vez mais imbricados por mediações avançadas que permitem maior imediatismo na comunicação. Essa aproximação já se configura no jornalismo televisivo cuja intenção, dentro de um aspecto universal dos fatos, é exercer o caráter útil das notícias em uma abordagem diferenciada para a valorização das narrativas. Essa proposta não prevalece apenas nas grandes redes de comunicação como a TV Globo. Suas afiliadas também adotaram o modelo, uma espécie de novidade do ponto de vista estético. Se considerarmos como conteúdo, percebemos que o jornalismo, de um modo geral, segue suas pragmáticas no preparo da informação.

O telejornalismo vem se remodelando em formatos que compreenderam desde o gênero radiofônico dos anos 50 até modelos adaptados em função de sua realidade espaço-temporal, principalmente agora em que a busca pela interatividade e por uma linguagem já transformada junto ao telespectador se mostram como tendência.

Nota-se o aspecto colaborativo no binômio produção/recepção com o aumento da participação da audiência no sentido de construção de produtos midiáticos. De acordo com Vizeu e Siqueira (2010, p. 89), “o campo da produção passa a contar com um novo ator: o público. Uma audiência que não assiste mais só ao telejornal, mas pode contribuir para a sua produção, para a produção de notícias e reportagens”.

A mídia eletrônica sempre representou avanços na história da comunicação de massa. Foi assim com o surgimento do rádio (anos 20), com o desenvolvimento da televisão (anos 50) e atualmente com a multiplicação das Redes Sociais, um conjunto de suportes midiáticos pelos quais a comunicação é instantânea e se remete ao que previa McLuhan com seu conceito de Aldeia Global.

Essa convergência midiática–sobretudo entre Televisão e Internet –representa, segundo Jenkins (2008), uma proposta diferenciada. As relações se redesenham enquanto públicos e mercados mudam. Essa alteração se dá muito pela relação entre a produção e a recepção. Porém o autor (2008, p. 45) alerta para uma possibilidade de fluxo contrário às junções midiáticas:

Por um lado, a convergência representa uma oportunidade de expansão aos conglomerados das mídias, já que o conteúdo bem-sucedido num setor pode se espalhar por outros suportes. Por outro lado, a convergência representa um risco, já que a maioria dessas empresas teme uma fragmentação ou uma erosão em seus mercados. Cada vez que deslocam um espectador, digamos, da televisão para a internet, há o risco de ele não voltar mais.

A formação de uma nova cultura midiática gera outros comportamentos. Como define Mattos (2010), a década 2000-2010 é a da fase de convergência e qualidade digital. Esse cenário convergente fez com que veículos de comunicação tradicionais aderissem aos comportamentos contemporâneos. Muitas emissoras convergiram com as Redes Sociais (twitterse blogs, por exemplo) para serem “seguidos” por usuários desses meios.

Outras, inclusive, disponibilizam no espaço infinito da Internet, as edições de seus telejornais na íntegra ou reportagens selecionadas. O aspecto de convergência é tão importante que não é mais necessário assistir à televisão em um aparelho receptor próprio, marco cultural do início do meio no Brasil. Além do conteúdo praticamente “imortalizar-se” em sites, ele pode ser veiculado em celularesou em receptores de TV para computadores portáteis devido à mobilidade da TV Digital.

A Televisão Digital foi adotada, no Brasil, em 2 de dezembro de 2007 pelo governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva, que adotou o sistema japonês ISDB-T. Segundo publicação da Revista do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, em fevereiro de 2008, o modelo oriental responde prioritariamente às questões de imagem e mobilidade, deixando escapar pontos que contribuiriam para a inserção da sociedade no ambiente digital. Toda essa transformação, como tendência, se justifica tecnicamente, porém, não passa de apontamento o perfil de seu público, que ainda em construção, interpreta esse processo apenas como avanço tecnológico.

Observa-se pouco um formato queaponte os caminhos para a interatividade e produção de conteúdos digitais. O prazo final para que todo o sistema televisivo brasileiro estejanesse formato é 2016. Enquanto digital e analógico coexistem, o que se configura interativo é o contato dos telespectadores com a emissora por e-mail, telefone, cartas ou ainda, via chat, com algum especialista que tenha abordado um tema específico ao longo da programação jornalística.Conforme apontam Cirne, Fernandes e Pôrto (2009, p. 85):

Frequentemente anunciam osite correspondente ao telejornal como um espaço de interação, onde os telespectadores podem “chatear” com um especialista sobre determinado assunto, buscar informações complementares que não foram veiculadas no telejornal ou ainda sugerir pautas para outras edições.

O chat acaba por corresponder a um momento de esclarecer dúvidas que não tiveram respostas por falta de tempo no espaço da televisão. Tal convergência não é somente tecnológica, é essencialmente cultural. Nesse sentido, aplica-se o conceito de tecnocultura, mencionado por Sodré (1996). É que os meios de comunicação de massa já tidos como tradicionais não escaparam das mais variadas formas comunicacionais de um presente tecnológico. Sob o ponto de vista dele, trata-se de uma instância de produção de bens simbólicos ou culturais por meio de uma impregnação da ordem social pelos dispositivos maquínicos de estetização ou culturalização da realidade.

A transmissão cultural está numa tríade em que cada vértice contém: meio técnico de transmissão, aparato institucional de transmissão e distanciamento espaço-temporal. A primeira trata a maneira pela qual uma forma simbólica é produzida e transmitida. Através dela, os receptores podem guardar a informação em uma espécie de estoque, como defende Thompson (1995). Esses conteúdos significativos são determinantes também para a reprodução das formas simbólicas, que neste século XXI, se projetam nas tendências tecnológicas.

Estruturalmente para se compreender televisão, colocam-se duas de suas vertentes: enquanto imagem e enquanto veículo de comunicação. Não há como desconsiderar que mesmo por novos modelos de produção e interação, a imagem não seja a principal vantagem desse suporte midiático. Tanto que é um meio visual por excelência. Segundo Moles (2005), a televisão é um importante modo de transmissão e contribuinte da cultura. Já para Fahle (2005), trata-se de um meio de comunicação de massa impregnado pelos mais diversos discursos de poder.

Seja no imagético, na ambiência cultural, na convergência ou na interatividade, o telespectador, que atualmente também se lança à condição de produtor, condiciona-se a um contexto como propõe Thompson (1995, p. 35):

[…] é importante enfatizar que as atividades de recepção são práticas sociais complexas que envolvem graus diferenciados de habilidade e atenção, que são acompanhados por graus diferentes de prazer e interesse, e que se entrecruzam de maneiras complexas com outras atividades e interações que têm lugar na região de recepção primária.

Transmidialidade, Noticiabilidade e a Produção de Conteúdos no Telejornal

Uma vez apontado que a convergência é uma condição midiática do presente, não é mais possível seguir um modelo de produção televisiva como em seu início. Segundo aponta Temer (2010), as mudanças de relação entre televisão e público tornam o futuro incerto para o próprio meio e seus produtos. Ela acrescenta (2010, p. 102):

[…] é preciso compreender a televisão a partir de observações continuadas, sua história e seu desenvolvimento, sua relação com outros gêneros de programação e, a partir desse ponto, apontar tendências e possibilidades para o telejornalismo produzido e veiculado […] (TEMER, 2010, p. 102)

Toda essa tendência de convergência mais esse futuro incerto que Temer (2010) prevê para o telejornalismo nos leva a refletir sobre o papel a ser desempenhado pelos produtores de conteúdo. Praticamente não se pode definir mais que um profissional da comunicação seja exclusivo de um determinado segmento da mídia porque as produções não são mais limitadas. Se os aparatos são transmidiáticos, os profissionais são multimídia. Descentralizam-se funções únicas. Entretanto um obstáculo para isso é, em termos, a formação e a profissionalização que ainda estão longe do ideal para a confirmação dessa situação.

À medida que novas instâncias midiáticas se configuram, a primeira interferência, após o caráter tecnológico, é a inovação e adaptação de sua linguagem. O que se propõe para o telejornalismo de agora é encontrar uma forma revisada para contar os fatos embora isso não aprofunde e, muito menos, melhore a qualidade das narrativas.

Nesse âmbito de formatação de linguagens e disposição do profissional de jornalismo para as adequações da notícia, Charaudeau (2007, p. 72), alega que “a instância de produção teria, então, um duplo papel: de fornecedor de informação, pois deve fazer saber, e de propulsor do desejo de consumir as informações, pois deve captar seu público”.

No caso da televisão, conta-se uma história com personagens, informações e imagens, que em uma concepção estética (a reportagem) assume esse compromisso. Entretanto o profissional que registra as histórias dispõe de princípios, opiniões, posições partidárias, e tantas outras condições que obviamente interferem na construção de uma reportagem, afinal, aquela é sua visão de mundo frente ao fato. É por isso que podemos apontar para a inexistência da imparcialidade no jornalismo. E não confundamos Imparcialidade com Objetividade. A primeira se refere a valores pessoais que apontam para o direcionamento de uma construção jornalística enquanto a segunda refere-se a uma forma de contar uma história seguindo um princípio jornalístico básico que é o de sempre ouvir a versão de todos os envolvidos em um fato. Cirne, Fernandes e Pôrto (2009, p. 101-102) argumentam que:

No jornalismo atual, sabemos que mesmo que não se leve em consideração tão explicitamente o impacto da recepção de uma reportagem, ela é construída para ser percebida de maneira específica. Isso se deve à figura do editor que encadeia a seqüência da mensagem.

Apesar de todo o avanço tecnológico, da preocupação com formatos que deem conta dessa realidade tecnocultural, das convergências e mutação de linguagem, uma condição permanece imutável: o critério de noticiabilidade. A base dessa construção, segundo Wolf (1994), se apoia em acontecimentos interessantes, significativos e relevantes. A definição da notícia também segue, na televisão, o perfil editorial de um telejornal. Geralmente as reportagens nunca se isolam. Sempre estão contextualizadas em determinados cenários do cotidiano social. Para Sodré (2009, p. 21),

[…] os valores que sustentam a noticiabilidade de um fato – ou seja, a condição de possibilidade para que este venha a transformar-se em notícia – podem variar segundo o lugar do fato, do nível de reconhecimento social das pessoas envolvidas, das circunstâncias da ocorrência, da sua importância pública e da categoria editorial do meio de comunicação.

A reportagem de televisão desde seu processo de concepção, execução e finalização passa por uma seleção de imagens e trechos de entrevistas que casam com o texto para estabelecer o dualismo entre forma e conteúdo. Esse “casamento” entre texto e imagem é fundamental na linguagem do telejornalismo, que por abranger públicos tão diferenciados, precisa oferecer às diferentes camadas sociais um vocabulário passível de entendimento fácil. Amaral (2004, p. 193) mostra que:

No início, o jornalismo veiculado pela televisão era radiofônico e não um jornalismo com a linguagem característica do veículo que lhe dava suporte, isto porque, no início, a própria televisão buscava em outros veículos, como o rádio, o teatro e o cinema, elementos que pudessem conferir a ela (televisão), uma linguagem própria.

Por estas etapas às quais se submete, a reportagem acha-se condicionada aos filtros, que além dos critérios de escolha em relação à sua noticiabilidade, representam realidades recontadas pela subjetividade do profissional do jornalismo. Com o texto rápido, a televisão leva vantagem, pois, a inserção das notícias em um telejornal tem como função principal uma objetividade maior em dizer aquilo que a pessoa realmente precisa saber.

Fahle (2005) defende a televisão como instância de representação na qual as condições de poder são decisivas, como se evidencia, por exemplo, na questão de quem toma a palavra e ocupa a imagem por quanto tempo, quais as imagens que são mostradas e quais são excluídas.

A palavra, o texto, a apuração, a notícia, a reportagem, a redação, a pauta e a edição enquanto processos vinculados são os elementos do jornalismo, como considera Soares (2002). E o grau de credibilidade de uma notícia na televisão, segundo Piccinin (2006), se deve à imagem ancorada num texto em áudio, condição que produz sentidos de “verdade” aos acontecimentos, reforçando as propostas de “objetividade” e “imparcialidade”. Ela afirma que “[…] ao assistirem um telejornal, as pessoas também procuram sentidos para a realidade que as cerca. Elas aprendem ativamente e atribuem significados, ressignificam o mundo do telejornalismo, na experiência do seu dia-a-dia […]”. Porém a autora se baseia em Bourdieu (1999) para alegar que toda edição é escolha e sendo escolha pressupõe a não objetividade com intenções que dizem algo em lugar de outro algo.

Utilidade da Notícia e Mutação da Linguagem

A integração midiática, a pretensa interatividade da TV Digital e as práticas de jornalismo colaborativo fazem com que o telejornalismo acompanhe esse desenvolvimento. Como ilustra Rezende (2010), a televisão em seu início, teve predomínio do formato radiofônico, suas produções eram precárias e precisavam desenvolver a qualidade.

O Jornal de Vanguarda, da TV Excelsior, introduziu novidades com a participação de produtores, apresentadores e cronistas especializados. Superou os demais informativos por estrutura original e formas de apresentação. O Jornal Nacional, em 1969, nasceu sob a função de integrar o Brasil por meio de um noticiário.

Nos anos 70, a TV Bandeirantes inovou com Titulares da Notícia, cujo destaque foi colocar a dupla sertaneja Tonico e Tinoco para divulgar as notícias do interior do estado de São Paulo. A TV Tupi investiu na valorização da imagem no sentido de composição fotográfica. Os locutores apareciam em primeiro plano com o ambiente de uma redação ao fundo, opção de cenário muito comum nos dias de hoje.

A Hora da Notícia, da TV Cultura, identificava-se, também na década de 70, por uma ligação direta com o telespectador. Também lançou o Opinião Pública, com ênfase na cobertura de arte e cultura, além de valorizar a imagem nas reportagens exibidas. Nos anos 90, Boris Casoy instituiu no SBT a figura do âncora.

No século da convergência, em que até a concorrência não é mais somente entre suportes do mesmo gênero, o telejornalismo sentiu a necessidade de uma mudança para não perder espaço e tornar-se obsoleto. Por isso, a aposta está voltada para uma reformulação na estrutura do telejornal.

O telejornalismo, como linguagem, pertence a um sistema visual. E Diniz (2009, p. 690) aponta como elementos dessa linguagem:

[…] 1.a linguagem verbal escrita; 2.a linguagem cinética (imagem em movimento); 3.a linguagem gestual (inclusive da expressão facial); 4.a linguagem cenográfica (cenários, figurinos); 5.a proxêmica (movimentação de atores no espaço); 6.os recursos técnicos de gravação; 7.os recursos de edição; 8.recursos visuais; 9.gráficos; e 10.recursos de câmera, que atuam sobre as demais linguagens.

Para Chalhub (2006, p. 11-12):

Os noticiários de rádio e televisão têm nuclearmente, a função referencial organizando a estrutura da mensagem. Uma vez mais, como aí concorrem outras dimensões – no rádio, a voz, na televisão, a imagem – não podemos afirmar uma referencialidade pura do fato, da notícia, mas a ocorrência de outros elementos, tal como a expressão facial do apresentador, a entonação da voz do locutor etc: mescla-se a referencialidade com a posição do emissor.

A mudança na linguagem do telejornalismo vem se desenvolvendo de forma mais acentuada pela Rede Globo, que estabeleceu essa proposta sob duas questões essenciais: utilidade e proximidade com o público. Seu telejornais em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Brasília e Belo Horizonte atualizaram sua linguagem para buscar proximidade com o telespectador.

Sobre proximidade, os telejornais perceberam a necessidade de serem mais dialógicos com o público. Busca-se uma interatividade maior tanto que os apresentadores intervêm mais e toda participação ao vivo tem formato mais descontraído. A idéia é querer mostrar que o telespectador é único, um elemento “exclusivo” daquela informação. A tradução destes processos em linguagem também vai atrás do coloquialismo e de uma representação, isto é, aqueles profissionais que falam em frente às câmeras são pessoas comuns que comungam de problemas, obrigações e deveres similares ao telespectador.

Segundo Sodré (2009, p. 41), “o enquadramento técnico do fato pelo discurso jornalístico resulta, portanto, de um amplo consenso entre atores extramidiáticos, que bem podem ser vistos como personagens de um enredo em busca de verossimilhança”.
O conceito de utilidade refere-se à adoção do departamento de jornalismo da Rede Globo sobre o quanto uma notícia é útil ao telespectador. Como exemplo, podemos comparar a necessidade de se informar sobre o movimento em um aeroporto ou em um terminal rodoviário de grande circulação. Isso aponta não somente para uma mudança de linguagem mas também para a necessidade de alterar os conceitos de concepção das reportagens.

Um grande desafio de trabalhar com telejornalismo, nessa perspectiva de mudança, é efetivamente desconhecer para quem se fala. Por mais que as pesquisas de opinião (qualitativa) e de audiência (quantitativa), encomendadas pelos veículos de comunicação, tracem o perfil dos públicos, o número de pessoas que têm acesso a conteúdos jornalísticos é incalculável. De acordo com Soares (2002, p. 63), “As notícias televisivas são dirigidas a um público que abrange todas as classes sociais, com diferentes formações intelectuais. Tal característica exige um trabalho detalhado por parte do jornalista que tem de combinar bem dois elementos: texto e imagem”.

Por isso, é que Thompson (1995) considera que todo comunicador deve jogar com a capacidade de resposta do receptor, que passou a receber diferentes modelos de interações sociais através dos meios de comunicação de massa devido à pluralidade de produtos disponíveis.

Por se tratar de um meio de comunicação com linguagem de maior acesso sem a exigência de muita profundidade de quem assiste, a comunicação televisiva é uma interação social que se transformou como aponta Thompson (1995, p.297):

A cultura moderna é, de uma maneira cada vez maior, uma culturaeletronicamente mediada, em que os modos de transmissão orais e escritosforam suplementados –e até certo ponto substituídos –por modosdetransmissão baseados nos meios eletrônicos.

Essa perspectiva de uma linguagem em mutação também gera uma preocupação: o paradigma de encontrar o limite tênue entre inovação, liberdade e descontração e compromisso com informação, ética e respeito ao telespectador. Ao mesmo tempo em que o telespectador pode ser atraído por questões estéticas, ele confia naquele canal como um reprodutor de mensagens verdadeiras. Diniz (2010) considera, que com isso, o sujeito dentro da troca simbólica oferecida pelo telejornal, tem nessa relação com o pólo emissor o sentido de uma sociedade e a crença em si e no discurso aderindo a uma causa comum.

Portanto, para que isto aconteça, podemos pensar o formato como um desafio de linguagem para os produtores de conteúdo que necessitam estabelecer abordagens jornalísticas que levam a essa troca a qual propõe Diniz (2010). E para isso ocorrer, vale o investimento no aspecto universal da notícia. Esse é o caráter do comum em que a notícia não encontra ruído, ou seja, ela é de interesse mútuo eliminando algumas perspectivas como a localidade do fato.

Assim a mídia se forma também como um local que “bane” o conceito de raiz com determinado lugar. Para Muniz Sodré (1996, p. 28),

Na sociedade mediatizada, as instituições, as práticas sociais e culturais articulam-se diretamente com os meios de comunicação, de tal maneira que a mídia se torna progressivamente o lugar por excelência da produção social do sentido, modificando a ontologia tradicional dos fatos sociais.

Reflexos das Mudanças na Linguagem do Telejornal do Interior de São Paulo

Conforme expusemos, essa outra linguagem buscada pelos telejornais da Rede Globo, em capitais brasileiras, também se alastrou para o interior de São Paulo. Um formato diferente de telejornalismo foi adotado pela TV TEM, emissora afiliada da Globo, em quatro cidades do interior paulista: Sorocaba, São José do Rio Preto, Bauru e Itapetininga. Juntas cobrem 318 municípios que representam 49% do estado.

A programação dessas emissoras conta com 10 atrações, totalizando 8.500 horas de programação por ano. Cada praça (como é chamada a cidade-sede da emissora) exibe duas edições diárias do Tem Notícias: ao meio-dia e às sete da noite com a cobertura dos principais fatos de cada região. A edição do meio-dia varia entre 28 e 32 minutos em seu tempo de produção porque parte é ocupada pelo Tem Esporte. Seu conteúdo se configura por notícias mais factuais, comunitárias e aquelas que prestam serviço à população. As participações ao vivo são muito valorizadas e, devido ao tempo maior de veiculação, permitem com que seus apresentadores façam comentários a respeito de algumas matérias.

Em razão desta estrutura como espécie de apêndice da linguagem da Rede Globo mais o fato de a sede da TV TEM estar localizada em Sorocaba, a direção do grupo de emissoras resolveu iniciar a mudança da linguagem, em seu telejornalismo, pela primeira edição do Tem Notícias na cidade. Estar mais próxima do público parece ter sido a nova proposta adotada pelo Jornalismo da TV TEM. Desde o dia 1 de novembro de 2010, o telejornal ganhou essa linguagem diversificada. Percebe-se que a intenção é praticamente “conversar” com quem está em casa ou em movimento devido à possibilidade tecnológica. Essas tentativas vêm ganhando espaço com os apresentadores no estúdio e também nas participações ao vivo dos repórteres. Tudo aponta para um grande ensaio da ainda nebulosa interatividade na TV Digital.

A atual proposta significa uma mudança nas relações com os públicos e não nas práticas jornalísticas. Sobre formato e conteúdo, algumas considerações. Em relação ao primeiro, o telejornal ficou mais dinâmico, sobretudo com a valorização de uma conversa nos links como algo que se complementa e não apenas em um sentido mecânico em que se cumpre tempo. Esse dinamismo também se completa com alguns recursos disponíveis aos apresentadores. Foi instalado um telão de cristal líquido para eles, em esquema de revezamento, chamarem em pé, repórteres ou entrevistados e o apresentador do estúdio da unidade da emissora, em Jundiaí, outra cidade que compõe a área de cobertura.

Já para o conteúdo, nota-se uma linguagem mais informal, porém, um discurso que se constrói com parâmetros que se perpetuam, no fazer notícia, isto é, a determinação dos critérios de noticiabilidade amparados nas subjetividades dos jornalistas. Mesmo assim, nas edições de segunda a sexta-feira, são programadas as discussões centrais de cada dia que são abordadas com uma reportagem e um link na seqüência. Em algumas ocasiões, alguns pontos importantes são ressaltados e exibidos em um monitor que tem uma arte – recurso do jornalismo que reúne informações em uma tela padrão com signos visuais que identificam o telejornal – para chamar a atenção do telespectador sobre a importância daquilo no sentido de reforço de informação. As discussões do dia são sempre realizadas no segundo bloco do telejornal. Em todos os temas abordados, essa estrutura se mantém. Vale destacar também que o Tem Notícias não conta apenas com essa discussão central. Outras reportagens, notas e factuais compõem a edição.

O fato de trazer à pauta temas que se aproximam do cotidiano das pessoas gera um grau de intimidade entre televisão e telespectador, sobretudo, pelo fato de o meio configurar-se como um espaço que transmite realidades. Segundo Temer (2010, p. 104):

A audiência é, em última instância, a própria razão de ser do telejornalismo, pois de nada adianta fazer um bom telejornal se ele não for visto – não conquistar a atenção – do receptor. Para atender ao receptor/consumidor o telejornalismo segue em direção aos temas/assuntos que despertam a atenção do público. (TEMER, 2010, p. 104)

Mesmo sabendo que esses assuntos escolhidos passam por processos de filtragem, o interessante é a abordagem que pode ser feita na entrevista ao vivo. O atual modelo do telejornal da TV TEM deixa claro que, nessa instância do jornalismo, os esclarecimentos prestados por especialistas das mais diversas áreas são feitos de forma didática, isto é, explicativa.

Entre temas já abordados, ressaltamos alguns. Não podemos deixar de citar o primeiro dia dessas experiências com linguagem, momento em que o formato alterado foi apresentado ao telespectador. A discussão central foi sobre como escolher os alimentos pelos valores nutritivos das cores. A reportagem levou uma nutricionista a um supermercado para explicar isso. Depois houve reforço do significado das cores no monitor do estúdio. A entrevista ao vivo foi em um supermercado, com dicas de como escolher esses produtos. A discussão terminou com comentário dos apresentadores, que buscam se aproximar da audiência.

em relação a temáticas que se aproximam do cotidiano das pessoas já houve dicas sobre como escolher uma boa escola para o filho, etiqueta pessoal durante uma entrevista de emprego, transtorno do déficit de atenção em crianças e adolescentes, doenças ocupacionais do trabalho, como limpar o nome em meio a dívidas, hora certa de dar mesada para crianças, cuidados para ter uma velhice mais saudável e até os tipos de medo que as pessoas sentem. O conteúdo tornou-se uma reconstrução que envolve variadas fontes para compor um cenário que demonstre aos telespectadores, de forma fácil e intelegível, como lidar com situações diárias.

Considerações Finais

Convergência, TV Digital e Interatividade são os elementos que formam uma cultura midiática, ainda em construção, para o século XXI. Sua reestruturação inicial é de caráter tecnológico (forma) seguida por adequações de linguagem (conteúdo). Enquanto tecnicamente nota-se um avanço de grandes proporções, o sentido das coisas vai se configurando por etapas. Fica até difícil prever um futuro aos meios de comunicação que sofrem a influência dos processos de convergência.

Diferentes configurações se estabelecem. Afinal não são apenas as estruturas técnicas que se alteram. O modo de fazer e receber também. É preciso considerar que os produtores de conteúdo devem entender esse movimento de mudança para tentar, ainda que sem saber oficialmente, a quem se produz. O desafio para quem faz é um pouco maior sobretudo porque falta nessa relação o processo de troca, um pilar básico e necessário para a comunicação se realizar. Como Charaudeau (2007) aborda, a produção passa a fornecer informação e usar mecanismos para captar público. Por isso, no caso do telejornalismo, a aposta em uma universalidade que trate de temas do cotidiano com formato de aproximação. A fórmula encontrada para isso foi substituir o modelo de linguagem, apostando na utilidade que a notícia tem na recepção.

Aliás, uma recepção que tem outra função de ator social. Com a possibilidade de convergência, fica iminente a troca de papéis exercidos dentro do contexto midiático. O telejornalismo pode deixar de ser um espaço de referência justamente pela existência de outro espaço mais amplo e infinito: a internet. O público começa a ganhar um espaço maior na mídia porque agora também dispõe de estruturas para colaborar e ajudar a produção midiática.

Todas essas mudanças são indícios de novos comportamentos. O telejornalismo já se atentou a mudar seu estilo em contar histórias. É bem verdade que continua determinando critérios para conferir aos fatos e o grau de possibilidade de se transformar em notícias. Acrescenta-se ainda a tendência do jornalismo colaborativo, deixando a possibilidade de tentar previsões sobre a Era da Interatividade com a digitalização total do sistema televisivo brasileiro.

REFERÊNCIAS

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WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. Lisboa: Presença, 1994.

 

 

Pelo Desejo do Gozo: A TV Digital Brasileira Entre o Valor de Comunicação e o Valor de Mercado

Rodrigo Gabrioti

A digitalização e a tecnologia são as marcas da Comunicação neste século XXI. Por que as marcas da Comunicação? Porque como diz Muniz Sodré (2012), a Comunicação, em princípio, é uma experiência antropológica fundamental já que não há vida social sem ela. As experiências, nesse sentido, transpuseram limites e praticamente tudo está ao alcance de todos. Passamos do estágio de aldeia ao estágio planetário, como entende Charaudeau (2007). Tempo e Espaço se alteram nas dimensões pela tecnologia, elemento pouco ausente das sociedades dos dias de hoje, compreende Barbosa (2012). É bom frisar que o entendimento de tecnologia não se dá apenas pelo fato de que agora temos a digitalização como processo. A tecnologia existia em outras dimensões da comunicação como as pinturas rupestres, a imprensa de Gutenberg, a fotografia, o cinema, o rádio, a televisão. Ocorre que agora, tecnologia e digitalização se convergiram em processos transmidiáticos.

É sob essa perspectiva que um dos meios de comunicação mais importantes e venerados do Brasil, como em toda a América Latina especialmente, se encontra: a televisão é digital. Esta afirmação já pode ser considerada um fato, mas requer análises cuidadosas e criteriosas, pois, se trata de um fenômeno em construção. Por isso, nossa proposta é justamente pensar qual seu valor com vistas a um conceito que possa eliminar o questionamento sobre esse valor produzido: ele é de Comunicação ou de Mercado?

O cenário da TV Digital, no Brasil, começou a se constituir efetivamente em novembro de 2003, com a validação do Decreto 4.901 autorizando a operação do Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD) que entrou no ar em dezembro de 2007 pela cidade de São Paulo. Em seus primeiros 5 anos de operação, 102 emissoras de 480 municípios já fazem esse tipo de transmissão. A primeira grande pergunta a se fazer é: Um fenômeno ainda em construção baseado em previsões, justifica-se de que modo no âmbito das Ciências da Comunicação? Apropriando-se de Martino (2007, p. 27), “[…] em relação ao fenômeno, é preciso ter em conta que não se trata de um objeto empírico, mas construído através de uma elaboração teórica”.

Pois bem. A elaboração teórica é, para a TV Digital, um desafio. Aliás, todo processo de digitalização se faz incógnita. Percebe-se, de imediato, mais precisamente na Internet, o estímulo que as tecnologias deram à tentativa de revalidação do conceito estrutural de Emissor, Mensagem e Receptor, pois, essa tríade primária e elementar da Comunicação se revisa no sentido de que ambos os extremos, Emissor e Receptor, agora têm condições iguais de produção da mensagem. Mas ao que se refere Martino (2007), aplicando seu conceito ao fenômeno em construção da Televisão Digital, é mais delicado e pontual. Mesmo com o avanço de tecnologia e digitalização, os processos comunicacionais ainda estão retidos, quanto suas análises, às teorias basilares da comunicação. Uma teoria fundamentada na Complexidade de Morin (2010) é algo que deve explicar o que torna possível sua produção. Caso não explique, ela deve saber que o problema permanece. No quadro das teorias basilares, como podemos exercer suas formulações frente à TV Digital? O que é preciso levar em conta é que tendências e perspectivas atualizadas surgem, logo, as necessidades se fazem outras. E esse novo fenômeno, segundo Brittos (2011), vai implicar em alterações significativas nas áreas técnica, artística, gerencial, comercial e tecnológica provocando verdadeiras transformações nas formas de fazer, organizar, veicular e fluir conteúdos.

Talvez o problema mais sedento por resolução seja o reconhecimento da Comunicação como Ciência. Barbosa (2012) ressalta a importância de uma trajetória própria. Sodré (2012) e Hjavard (2012) reforçam que os pesquisadores da área ainda se rendem acentuadamente aos paradigmas dos efeitos. Como diz Sodré (2012, p. 18), “a perspectiva dos efeitos é, em termos esquemáticos, a busca de instrumentos de avaliação das mudanças operadas pela mídia sobre os laços de coesão tradicionais”.

Enquanto não se oficializa integralmente, a gramática da TV Digital pode em algum momento se assemelhar ao que McLuhan previu a respeito da mídia eletrônica. Diante da nova proposta, o que não faltam são alternativas, especulações e projeções. Vai ao encontro do Espetáculo, de Guy Debord. No Brasil, a digitalização definitiva, segundo a regulamentação governamental, será a partir de 2016. Tal prazo é contestado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, ex-diretor-geral da Rede Globo. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, ele afirma que não haverá dinheiro para digitalizar 8.000 repetidoras, o que vai obrigar o adiamento da digitalização total. Com isso, a convivência entre analógico e digital pode se estender e se assemelhar ao que ocorre no paralelismo dos meios impressos e digitais.

Mais do que a falta de dinheiro, o brasileiro por uma questão cultural intrínseca de deixar tudo para a última hora, parece ainda não ter se atentado definitivamente à introdução do sinal digital para o mais consumido meio de comunicação massivo. Além desse fator, o que se compreende até agora sobre a TV Digital, é que o telespectador vai ganhar Interatividade e melhor qualidade de imagem e som, condições que podem atrapalhar a fidelidade ao meio TV em um cenário de convergência. Esse discurso se constitui numa Racionalidade que pode ser uma lógica no sentido de modo de operação que leva à compreensão. O sentido dessa Racionalidade é, então, que a chegada da TV Digital traz imagens melhores, som de cinema e a possibilidade de adquirir informações e mercadorias da programação imediatamente via controle remoto com acesso a canais específicos de oferta. Características que não passam do âmbito técnico e geram novas configurações tecnológicas, mercadológicas e sociais. Som e imagem se decodificam em uma base binária com linguagem semelhante à dos computadores e funcionam como novos dispositivos de fruição do audiovisual. Porém há um contraponto. Quem passar a entender instintivamenteo que o receptor incorpora como mensagem torna o entendimento da Comunicação como Língua. Logo, a Racionalidade precisa ser derrubada.

Há autores, por exemplo, que definem a Internet como perspectiva técnica e cultural – o conceito de convergência dado por Henry Jenkins (2008) é esse. Porém, no caso da televisão, acreditamos que a instância cultural ainda não se admite em sua digitalização. A TV é cultural seja em qual modo operar. Como meio de comunicação ou aparato é idolatrada. Nesse sentido, dizemos que tudo que se diz até agora de Televisão Digital é de caráter técnico, pois, até sua Interatividade é pretensa. Interatividade que, para Jenkins (2008), é o potencial de uma nova tecnologia de mídia (ou de textos produzidos nessa mídia) para responder ao feedback do consumidor. Assim, sobre TV Digital como se anuncia institucionalmente e pouco se consome na prática, a Racionalidade se faz Língua.

Observa-se que a TV Digital, como prevê Morais (2010), acarreta mudanças que virão do arcabouço de novas tecnologias. Construir a Interatividade dessa nova dimensão da televisão se traduz em desafio, pois, como o desligamento total do modelo analógico ainda não ocorreu, todo seu caráter interativo pretenso faz sentido. As definições de Interatividade e Interação são mal resolvidas. Interação tem a ver com relações humanas ao passo que Interatividade se refere à relação homem-máquina. Conceitos totalmente inseparáveis, mas, que encontram dificuldades em suas formulações. Com isso, o fenômeno vive a presentificação do gerúndio do “em acontecimento” por ser uma construção vigente, sem concretização por ora, com possibilidades também de atingir o incipiente. Sua formatação desperta palpites dos teóricos, é obscura, complexa, todavia institucionalizada pelas emissoras e suspeita entre o público que consome a cultura televisiva, a qual passa atender os bens simbólicos da convergência.

Essa suspeição apontada se justifica porque há, em nosso modo de ver, uma considerável lacuna entre o entendimento de televisão por parte do público e a gramática que tenta se construir para a televisão digital. Aos olhos comuns do entendimento massivo, televisão é televisão assim como cada significante assume sua compreensão. O número 1 é 1 e não 2, 3, 4, por exemplo. Trata-se de um significante dominado pela cultura televisiva a qual, em nosso espaço, é fortemente acentuada. Nos dizeres de Eugênio Bucci (2012), em suas aulas de pós-graduação na Universidade de São Paulo, o que gruda o significado ao significante é a Ideologia que representa as relações imaginárias sustentadas pelo signo. Diante disso, ele complementa: “a palavra é uma tensão, pois, não pertence a quem a emite nem a quem se destina”. Até podemos considerar que o não pertencimento da palavra ao emissor ou ao receptor a faz vagar pela semiosfera a ponto de encontrar resistência onde o significante tem peso, isto é, não adianta se falar intensamente da TV Digital, se ao senso comum, o significante da TV é a própria TV.

No discurso acadêmico, o papel das Teorias ao estabelecer ação de participação dos outros, interação, etc… precisa de um sistema de relações mútuas que comunguem propostas e compartilhem experiências, discursos e pensamentos. Segundo os espanhóis Juan Jose Igartúa e Maria Luísa Humanes (2004), um conjunto que leva a epistemologias diferenciadas tais quais: (a) Dinâmicas – sujeitos e objetos transformados; (b) Culturais – os fenômenos comunicativos não são isolados do contexto social geral; (c) Interações – produção de conteúdo e ação social da audiência.

Bucci (2002) trata de Ideologia como representação das relações imaginárias sustentadas pelo signo, ele quer introduzir a Ideologia como falsa ideia, falsa impressão, falsa consciência. Ideologia é uma síntese do discurso. O que é a Ideologia da TV Digital? Melhor imagem, melhor som e Interatividade. Isto já são práticas do que Bucci (2002) chama de Videologias, a Ideologia em Imagens, pois, uma das premissas já é melhor imagem acoplada ao som enquanto a outra é Interatividade que resultará em uma troca mediada com o emissor. O elemento de viabilidade é o GINGA, software desenvolvido pela PUC-Rio e UFPB, após 15 anos de pesquisas. Trata-se de uma camada intermediária que, instalada em conversores (set-top boxes) de televisores e em dispositivos portáteis, funciona como canal de retorno e dá suporte à interatividade facilitando o desenvolvimento de aplicações. Uma interação que também viabiliza a troca de informações entre as emissoras e o telespectador já que imagem e texto devem ser definidos e tratados por fenômenos colados ao software que permite um sincronismo de mídias. Conforme Thompson (1995, p. 226),

Quando as formas simbólicas são transmitidas para além de um contexto de co-presença, podemos falar de extensão de acessibilidade das formas simbólicas no tempo e espaço onde a natureza e o grau de acessibilidade-extensão dependem tanto do meio técnico de transmissão como do aparato institucional em que o meio e seus usuários estão inseridos. (THOMPSON, 1995, p. 226)

As condições técnicas oferecidas pelo GINGA se restringem a formato de tela, local, multiprogramação, monoprogramação e alta definição. A Interatividade ainda é opcional ao fabricante. Logo a ideologia é um significante. No caso da TV Digital, esse significante tem de se reportar a uma nova fase.

Porém encontramos sinergia em alguns conceitos similares com visões construídas por outros fios condutores. Na Indústria Cultural, formada pelo conjunto dos meios de comunicação e seus produtos, em que havia estandardização (repetição infinita do sempre igual) e racionalização das técnicas de distribuição (padrão), Adorno, criticado por seu elitismo, pessimismo e imobilismo, afirma que o consumidor se tornou a ideologia da Indústria da Diversão. E não podemos desconsiderar tal conceito, pois, antes mesmo de sua realização, podemos afirmar que TV Digital ainda é uma utopia. Suas primeiras emissões foram a grupos, de dinheiro ou não, que se curvaram aos apelos comerciais ou pela compra de aparelhos de TV com sistema HDTV embutido ou com a aquisição de conversores que, aplicados, à TV Analógica conseguem convergir o sinal em TV Digital. Isso gerou altos preços e consumo, a lógica maior do Capitalismo. Assim, em suas primeiras manifestações, pode-se entender que o consumidor foi a Ideologia do fenômeno em construção. Essa postura é, sobretudo, apontada ao consumo porque ainda são poucas as produções que temos voltadas ao sistema digital de transmissão. Assim, o que se tem de digital é tecnologia e não conteúdo.

TV Digital: Questões de Valor

É nosso desafio chegar ao entendimento se o valor produzido pela TV Digital é de Comunicação ou de Mercado. Duas formas para refletir sobre isso são as Instâncias da Palavra Impressa e da Imagem ao Vivo. Toda Instância é um suporte materializado do significante por onde os signos deslizam e existem sujeitos carregados de sentidos transitórios. Trata-se de um olhar social. No conceito de Bucci (2009), a Instância da Palavra Impressa levou à Instância da Imagem ao Vivo. Pela primeira, os discursos projetam o fenômeno e sua aplicabilidade já que a letra opera pelo pensamento. Da Imagem ao Vivo, apura-se como já se vê o Digital. Independentemente da fixação de que TV Digital é melhor qualidade de imagem e som mais interatividade, o que se pode conceber é que a palavra falada quebra a fronteira dos iletrados e, com isso, seu discurso, sua videologia pode ter mais apelo de valor entre a massa.

O que a Internet já faz, por meio dos sites das emissoras, e os recursos a serem adotados pela TV Digital, provocam uma desconstrução no que conhecemos da grade de programação televisiva. Isso vai levar à Instância da Imagem ao Vivo que vai permitir instantes recontados como se fossem imediatos – determinando a totalidade dos eventos nos dizeres de Bucci (2009) – e fazendo do tempo algo paradoxal, ubíquo que vai ser abastecido pela tecnologia cujo fetiche é achar que as máquinas, dotadas de conhecimento, mudam o homem que também age sobre elas. A programação, na TV Digital, deve passar a um consumo sob demanda em modelo semelhante a esse dos sites das emissoras. Muda que o acesso será por download, operação tal qual dos computadores.

A TV Digital, como fenômeno em construção, também precisa chegar ao conhecimento geral. Assim, passamos a tratar de Espaço Público e Opinião Pública. Bucci (2002) vai compreender que a comunicação institui o espaço público, nunca o contrário, em um espaço de contradições inclusive comunicacionais. Já a Opinião Pública seria resultante do diálogo entre sujeitos autônomos cada qual senhor de sua própria opinião particular. Conceito muito parecido ao de Habbermas que também vai falar de diálogo entre sujeitos autônomos de visões particulares que assumem uma inclinação. Só há espaço público quando há comunicação, no entendimento de Habbermas (1962) apud Bucci (2002), que pensa a esfera pública como racionalidade comunicacional fisicamente compartilhada pelo espaço público.

Em especial, quando se trata da Interatividade na TV Digital, chegamos a dizer que a Opinião Pública se desfaz e inexiste, pois, perde espaço para um sentimento coletivo, na terminologia de Andrade (1964), em que os fatos se disseminam fazendo do indivíduo um ser opinante, com repertório próprio que se traduz inicialmente em decisão arbitrária. A Opinião Pública só vai ser operacionalizada perante a Razão fundamentando-se na necessidade apontada por Andrade (1964) que abrange Avaliação, Julgamento e Reflexão, elementos majoritariamente decodificados entre colegiados dispostos objetivamente a uma tomada de decisão.

A Esfera Pública propicia um grau de abstração que corresponde a uma ausência física fazendo parte dela, ou seja, tomando como exemplo nosso fenômeno em observação, vivenciamos a incerteza de como será a TV Digital em sua totalidade ao entrar definitivamente em funcionamento. Sua distribuição, por exemplo, pode se dar por sinal aberto, por assinatura, telefonia móvel ou fixa e pela Internet, esta convergindo com a TV como aparelho (significado). O que se sabe até agora é o conceito arraigado de que sua literatura específica e constituição de mercado formam um espaço público. O primeiro gera opinião enquanto o segundo viabiliza estrutura.

Em tempos de digitalização, Bucci (2002) conceitua o Telespaço Público no qual o espaço é distante, virtual. A interação entre os sujeitos se dá pela telepresença de modo que os significantes estabeleçam um idioma imagético. Há 5 deslocamentos históricos de Tempo e Espaço considerados pelo autor: (1) Materialidade: ausência dos lugares físicos; (2) Ordem Anárquica do Conflito: níveis de conflito; (3) Esvaziamento do Significado em favor do Significante: visualidade e discursividade televisivas; (4) Sujeito do Inconsciente: formas de manipulação; (5) Telespaço Público não postula pretensão de unidade: fragmentável e fragmentado.

Também no Telespaço Público, os padrões de Tempo e Espaço se alteram, abandonando a Geografia e a Cronologia como suas referências principais. Vale considerar que no caso da TV Digital, a tecnologia não resulta em rompimento da Geografia, que já está fragmentada no que se refere ao espaço de atuação por conta da determinação das áreas de cobertura das emissoras, já constituídas por interesses, sobretudo, mercadológicos, o que altera profundamente os conceitos de região proporcionando outros fluxos de significantes à audiência.

Mas para melhor aprofundamento sobre o que é a esfera pública, temos de nos valer das contribuições de Habbermas (1962) apud Bucci (2002) introduzindo-o com a Teoria da Ação Comunicativa, dos anos 80, e a Opinião Pública, sem pressões, dos anos 90. Nesse espaço de tempo, o autor revê a lógica do capitalismo como dominador dos meios de comunicação. Esquematicamente, Habbermas considera como sistêmico 3 condições: Mundo da Vida, Economia (Capital) e Poder (Estado), sendo os dois últimos subsistemas. A Economia compra trabalho e devolve mercadoria ao passo que o Estado recebe voto,recolhe impostos devolvidos em serviços. Estes dois subsistemas colonizam o mundo da vida onde está o Agir Comunicativo que determina os modos de relacionamento. Os subsistemas são nada mais do que um Agir Estratégico. São, então, os subsistemas, pressões sobre o Mundo da Vida.

Como esse referencial teórico resvala praticamente no âmbito da TV Digital? A explicação mais plausível é que no Mundo da Vida está a massa, a audiência, o consumidor de TV. No subsistema do Poder, os propósitos do Governo Brasileiro para a TV Digital são garantir um sinal sem interferências, sem chuviscos, chiados e cores borradas. Pelo subsistema Econômico, o incentivo ao comércio fazendo com que consumidores comprem um novo aparelho ou o set-top Box, conversor que permite a transmissão digital, ou seja, resultado de um mercado que cria necessidades. Até a escolha pelo padrão japonês de transmissão atende um forte apelo político-econômico, dizem Brittos e Simões.

Retomado o Mundo da Vida como Agir Comunicativo, lá suas características se baseiam em linguagem comum e condições iguais de relacionamento entre os sujeitos. Diante do referencial teórico de Habermas, podemos por ora, entender que o fenômeno comunicativo da TV Digital ainda é Ação Estratégica e não uma Ação Comunicativa, logo, ele se trata de um subsistema.

Para ser um fenômeno comunicativo, isto é, um processo cooperativo de interpretação, a TV Digital como linguagem da Ação Comunicativa vai precisar fincar bases nas Pretensões de Validade. Seus argumentos vão precisar trilhar a Verdade Proposicional, a Retidão Normativa e a Veracidade Subjetiva. Quanto ao primeiro conceito, todo enunciado previsto vai precisar se confirmar. Sobre Retidão, trata-se de construir legitimidade, condição que ocorre na televisão como significante mais amplo no contexto brasileiro e também latinoamericano. E por útimo, a intenção do falante deve se confirmar com um convencimento. No caso em questão, justificar empiricamente que a TV Digital é mais do que técnica, é uma nova operação midiática no cenário da comunicação.

No entendimento de Brittos e Simões (2011), apesar de toda a técnica de digitalização, ela não se faz nas representações de produção ou recepção sem o capital humano. Os autores projetam para daqui 4 anos a manutenção da TV como negócio atendendo as novas demandas do consumidor com novas formas de trabalho e transmissão da informação além de possibilidades diferentes de acesso. Um exercício de convergência, não de Interatividade.

TV Digital: um Desejo de Gozo?

Na admissão de Desejo, devemos perambular pela noção lacaniana de Valor de Gozo que constitui um Imaginário, inflado por um apelo significante da mercadoria que é uma coisa produzida, a qual cabe discutir em seus Valores de Uso e Troca no contexto da teoria marxista em que ambos não se dissociam. A expressão Valor de Gozo foi pela primeira vez atribuída a Lacan no Seminário 14 de “A Lógica do Fantasma”, em 12 de abril de 1967. O Valor de Gozo fora comparado ao valor do nível do inconsciente sendo posteriormente tratado como princípio da Economia do Inconsciente.

O Valor de Uso corresponde a uma necessidade oriunda do estômago ou da Fantasia enquanto o Valor de Troca corresponde à necessidade e ao desejo. A Fantasia, em nossa Era, é um desejo que proporciona gozo. Segundo Bucci (2002, p. 5), “o significante da mercadoria é o que a põe em movimento na direção do sujeito – e este procura nela não um uso racional, conscientemente calculado, mas o gozo imaginário, dado pela completude que a mercadoria lhe proporciona imaginariamente”.

Já as relações de troca assumem um caráter mais de funcionalidade e status quo da mercadoria que transporta sentidos. Essas duas possibilidades se traduzem em necessidade (Trabalho + Olhar) que não pertence ao corpo físico da mercadoria. Olhar é uma aquisição social que leva a uma imagem que se faz Verdade. Porém não se trata de um canal de recepção. Bucci (2002) aponta o Olhar como propensão do gozo óptico (prazer de ver), ou seja, o mesmo olhar que recebe, cria uma tela para onde se olha com sentidos de acordo com algumas gramáticas visuais que obrigatoriamente precisam de nexo. Nisto, o Olhar reconhece signos já conhecidos e não se iguala enquanto sinônimo do imaginário porque sua função é encostar no imaginário para reprocessar a matéria-prima da construção corpórea marxista da mercadoria em Linguagem. Em outras palavras, o que Bucci (2002) quer dizer é que o trabalho é valor de uma mercadoria que, por sua vez, é um signo carente de fabricação. Tal processo, então, se dá por uma estruturação substitutiva ao entendimento corpóreo da mercadoria. Se Marx entende o Valor de Uso como Trabalho + Matéria-Prima, o Desejo dentro da perspectiva do Valor de Troca, se forma pela gramática Olhar + Linguagem.

O Desejo resulta, segundo Lacan, em um Fantasma, representado por um sujeito colado ao chamado pequeno objeto “a”, espaço cada vez mais preenchido pela mercadoria e onde também opera uma linguagem que dá completude ao sujeito de forma imaginária. De acordo com Bucci (2002, p. 5). “[…] a mercadoria é um signo (…) a mercadoria como signo fala sobretudo ao desejo, e não à necessidade”. Esse Fantasma proporciona o Valor de Gozo à mercadoria e se trata de uma oposição à verdade já que tem como fundamento motriz o imaginário que busca o Inconsciente no qual os signos ficam sem conexão.

No atual estágio da TV Digital, seu Valor de Uso ainda é a condição de melhor qualidade de imagem. Logo a fantasia que gera é um produto do Capitalismo. Seu pequeno objeto “a” é a possibilidade do indivíduo ter a condição de bancar a tecnologia que viabiliza sua execução. Já o Valor de Troca está ligado à concepção da TV como um aparelho, ou seja, um suporte pelo qual se processam e se transmitem imagens. Entre o imaginário e a real possibilidade de existência da mercadoria, é o Valor de Troca que tem primazia na concepção marxista. Bucci (2002) define a televisão como Fábrica de Valor de Gozo, resultante do Desejo (Trabalho + Olhar) que produz o esquema lacaniano do sujeito e o pequeno objeto “a”, uma linguagem capitalista. Isto o leva a compreender que o capital aparece na mediação entre as mercadorias muito mais intensamente do que entre os sujeitos.

Tudo porque na visão de Bucci (2002), o discurso da televisão desconhece a contradição, a negação e a impossibilidade. Nada mais relevante, afinal, a televisão é mesmo uma produção de necessidades, lógica capitalista, que incita o desejo nem sempre possível de realização. Finaliza Bucci (2002, p. 5):

Um exemplo real que encontramos para ilustrar melhor a citação: ao sabermos que a maioria das emissoras transmite em sinal digital, quando um aparelho receptor tem apenas a decodificação analógica, a inscrição do signo HDTV sobre a logomarca da emissora, faz dessa condição um gozo imaginário, pois, mesmo que o telespectador ainda não leve tanto em consideração ter o sinal digital, ele gostaria de ver tal produção em alta definição. Em outras palavras, esse discurso televisivo produzido é uma fabricação de gozo.

O capital assume funções de espetáculo e torna-se um modo de produção no entender de Debord (1967) para quem a sociedade se faz de imensa acumulação de espetáculos. Convém explicitar que Espetáculo e Indústria Cultural são conceitos diferentes. Toda Indústria, inclusive a cultural, trabalha sob a mesma forma de Organização, afinal, funciona como lógica de mercado, sem ideário. O Espetáculo se realiza em outra ordem, acima da Indústria. Sua gramática é a imagem cujo suporte é a mercadoria. A Economia rege as ações constituindo assim uma Anarquia da Produção. Aquilo que ficava na obscuridade do Capitalismo se torna visível no Espetáculo. Debord (1967) acredita no objeto sensível, isto é, aquilo no que se pode tocar e formula a partir disto seu conceito de capital. Segundo ele, o Espetáculo é o momento que a mercadoria ocupa totalmente a vida social.

Nessa concepção, os significantes do Espetáculo assumem um Valor de Troca contando com usos e representações. Pode-se atribuir nessa visão de Debord que o Espetáculo é um Gozo, já que o Valor de Troca roga por Necessidade e Desejo. Esse pressuposto teórico nos permite avaliar que o Espetáculo como imagem se traduz, nos dias de hoje, por uma necessidade absurda de registro do tempo uma vez que, auxiliadas pela tecnologia, as pessoas se propõem a estabelecer um sentido de vigilância social já que um simples aparelho de telefonia móvel – o celular não faz mais ligações apenas – separa os indivíduos do mundo por um clique ou toque. Logo, como acredita Bucci (2002), a sede de ser mídia domina, pois, isto se faz interativo.

Mediante tudo isso, partamos para a seguinte estruturação da TV Digital. Se pensá-la como Valor de Uso, o aspecto corpóreo marxista apresenta-a como uma necessidade, por sua vez, originada neste caso por meio da Fantasia, já que o desejo em consumi-la proporcionará um Gozo. Da necessidade enquanto Trabalho + Matéria-Prima, o que vamos extrair na situação em questão é um quadro de trabalhadores de uma indústria de eletroeletrônicos produzindo aparelhos de televisão, moldados à oferta de tecnologias vigentes que a posteriori chegarão ao mercado. Entendida pelo Desejo, a TV Digital, ao se conceber pelo binômio Trabalho + Olhar, vai ter uma atribuição do pequeno objeto “a” mais uma necessidade de Gozo, um valor acessório ao valor principal da mercadoria. Praticamente seria, no tocante, acompanhar uma transmissão de um jogo de futebol, por exemplo, da próxima Copa do Mundo, ano que vem, no Brasil, em alta definição. O Valor de Gozo disto só chegaria ao fim após a tortura do Desejo passar pelo Prazer, que se constitui como durante. Só que esse Valor de Gozo, que depende da mercadoria, tem a ver com o que o outro não tem. Como conceitua Bucci (2002), “é o exclusivo como oposto da exclusão”.

Tais relações também se explicam por Bucci (2002) apud Haug Fritz (1967) ao considerar que a mercadoria é criada no capitalismo à imagem da ansiedade do público consumidor, pois, ela representa algo que se deseja. Então, a mercadoria, de acordo com Bucci, é um canal de passagem que entrega o Gozo. Mercadoria que é imagem e cuja estética está em construção. Cada vez que se consome, se prolonga a fabricação de Valor de Gozo. Se pensarmos a Televisão Digital, como fenômeno em construção, com propostas iniciais demasiadamente técnicas, sua pretensa interatividade já que faltam conteúdos direcionados imediatamente, acreditamos que ainda há muito para se gozar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Embora acreditemos que a Televisão Digital viva o gerundismo, já que está em construção como fenômeno, é arriscado dizer sobre seu estado de “em acontecendo” uma vez que sua praticidade ainda nos parece pouco representativa. Ela ainda esbarra no significante das massas que a entendem simplesmente como televisão. Neste sentido, seu caráter sígnico é mais abrangente, pois, ainda a pensam como companheira e produtora de entretenimento para o ócio dos indivíduos.

Com isto, a Televisão Digital ainda não atinge o princípio da Comunicação que é o de colocar algo em comum alterando pensamentos e posições dentre os envolvidos no processo comunicativo. Como a Comunicação ainda se prende, no âmbito dos estudos acadêmicos, aos estudos dos efeitos, é necessário aguardar a execução da TV Digital para se ter uma ideia de suas implicações à área. Por enquanto, ela é somente uma projeção tecnológica. Nem as condições iguais de produção e recepção, propiciadas pelo computador, ela pode admitir.

Assim, observada como fenômeno e tida como necessidade tecnológica, neste instante, entendemos que a Televisão Digital ainda não tem um Valor de Comunicação. Ocorre com ela um Valor de Mercado, que consequentemente, provoca a Fabricação de Valor de Gozo. Ter acesso a uma programação sob demanda ou assistir determinadas transmissões em alta definição resulta em um Gozo, que passa obrigatoriamente pelo Desejo de Ter. Vale considerar que nem sempre o Gozo pode se realizar, por isso, o acesso à Televisão Digital, no Brasil, ainda pode se sintetizar pela tortura do Desejo.

A TV Digital assume a Ideologia da Indústria Cultural: o consumidor. Ela responde por um desejo tecnológico, logo, é um Gozo que provavelmente perdure por muito tempo devido às inúmeras inovações que podem ser produzidas. Só pode ser admitida como Valor de Comunicação a partir do momento que a Interatividade se consumar plenamente a ponto de fazer com que os indivíduos deixem a TV Digital se relacionar com o cotidiano não apenas para momentos de ócio.

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SODRÉ, Muniz. Comunicação: um campos em apuros teóricos. MATRIZes, São Paulo, v. 5, p. 11-27, 2012.
THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.

Identidades Latinoamericanas no discurso midiático da TAL TV

Rodrigo Gabrioti

É praticamente impossível pensar que atualmente qualquer indivíduo esteja à margem de informação e conhecimento. Ao considerar a linha do tempo dos meios de comunicação, rapidamente nota-se que cada suporte se afastou de suas limitadas condições, de seu alcance e caráter locais para aderir a esta que é a Era da Convergência. Cada elemento reúne peculiaridades de seu processo absorvidas em plataformas comuns onde texto e imagem se complementam. Seria possível pensar que, graças ao advento da tecnologia, certos conteúdos seriam acessados sem maiores complicações? No curso da História, receber determinadas informações se dava apenas pela difusão dos tradicionais meios de comunicação. Agora é possível qualquer indivíduo intermediar o próprio acesso. Nesse contexto, surge um meio de comunicação convergente que possibilita a socialização imediata do acesso.

O objetivo deste artigo é analisar como a TAL TV – Televisión América Latina – exerce sua convergência e difunde produções audiovisuais no contexto latinoamericano. A TAL TV é uma rede de intercâmbio e divulgação da produção audiovisual dos 20 países da América Latina. Sem fins lucrativos, reúne centenas de associados: canais públicos de TV, instituições culturais/educativas e produtores independentes. Caracteriza-se, oficialmente, como uma web TV, um banco de conteúdo audiovisual e uma produtora de vídeo. É possível justificar essa funcionalidade por meio de Barbero (2005, p. 6):

La convergencia tecnológica entre el sector de las telecomunicaciones y el de los medios de comunicación –el entrelazamiento satelital de la televisión con su acceso directo o por cable, y digitalmente con internet – está transformando las figuras tradicionales de la propiedad, del funcionamiento y gestión de los medios audiovisuales.

A proposta da TAL TV é elaborar conteúdos para que os vizinhos da região se conheçam um pouco mais. Hoje, possui um acervo de mais de 7 mil programas, produzidos por profissionais latinoamericanos. Tudo dividido em 6 gêneros (Curtas, Documentários, Especiais, Musicais, Produções Originais e Séries) e 11 canais (Arte, Comportamento, Culinária, Cultura, Curtas, Ecologia, Educação, História, Humor, Literatura, Música e Dança e Viagens), além de 9 programas especiais.

É justamente por meio de uma série especial que pretendemos tratar, nas páginas seguintes, as identidades latinoamericanas no discurso midiático da TAL TV. Os países selecionados para análise são os fundadores do Bloco Mercosul: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Nosso objeto selecionado é a Série Especial “Os Latinoamericanos”. De acordo com a definição do site da emissora3, uma produção original de 12 episódios da TAL, realizada em parceria com jovens diretores e produtoras independentes com o objetivo de estabelecer um panorama dos elementos que nos distinguem e ao mesmo tempo nos identificam como latinoamericanos. Cada documentário busca a identidade de uma nação através do olhar particular de um diretor em seu país. Dos quatro acima mencionados, apenas um ainda não teve sua identidade cultural produzida pela TAL: o Brasil. Para trabalhar essa questão na principal nação do eixo recortado, buscaremos em Alfredo Bosi uma explicação para a cultura brasileira, ou melhor, para as culturas brasileiras.

Entretanto, antes de partirmos para as análises mais aprofundadas de cada produção audiovisual, é recorrente estabelecer alguns conceitos de cultura, identidade e integração, afinal, abordaremos especificidades que representam as identidades e culturas desses países por meio das quais pensaremos a integração, no sentido de aplicar essas produções audiovisuais ao nosso conhecimento e apreensão.

Quando buscamos essa leitura das produções da TAL TV a um contexto cultural, logo, podemos aplicar nesse contexto, os conceitos de tecnocultura, sujeito e objeto, todos de Muniz Sodré (1996). Ele vai entender a tecnocultura como a instância de produção de bens simbólicos ou culturais por meio de dispositivos maquínicos de estetização ou culturalização da realidade. Ou seja, cada documentário a respeito de um país retrata os bens simbólicos como partes da cultura. Essa divulgação se dá por meio de uma técnica, neste caso, a audiovisual, cuja valorização são as imagens. O discurso é onde sujeito e objeto vão aparecer. De acordo com o teórico, o primeiro em situação de busca pelo idêntico ao passo que o segundo carrega a atribuição de significados e funções.

Os significados, em especial, são os sinalizadores da Cultura que resultam na identidade. Segundo Barañano, Garcia, Cátedra e Devillard (2007, p. 183), “La identidad posee una dimensión individual, es um atributo del individuo”. O que cada povo focalizado nos documentários latinoamericanos da TAL TV pensa é o equivalente à sua crença cultural. Tanto que Hall (2006, p. 50) define: “Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos”.
As identidades são uma apreensão individual porque cada indivíduo vai compreender seu entorno de uma maneira. Segundo Augé (1994, p. 50-51):

As coletividades (ou aqueles que as dirigem), como os indivíduos que a elas se ligam, necessitam simultaneamente pensar a identidade e a relação, e, para fazerem isso, simbolizar os constituintes da identidade partilhada (pelo conjunto de um grupo), da identidade particular (de determinado grupo ou determinado indivíduo em relação aos outros) e da identidade singular (do indivíduo ou do grupo de indivíduos como não semelhantes a nenhum outro).

Mais adiante, pretendemos responder o ideário de Augé (1994). Os grupos mostrados caminham para uma identidade partilhada, particular ou singular? Como aponta Kuper (2002, p. 22), “todos descobrem que têm uma cultura”. Essa cultura pode se manifestar de diferentes formas: religiosa, no êxodo para a cidade grande, midiática, etc… Ainda segundo Kuper (2002, p. 35):

A ideia de cultura podia realmente reforçar uma teoria social de diferença. Cultura podia ser um eufemismo para raça, estimulando um discurso sobre identidades raciais enquanto aparentemente abjurava o racismo. Os antropólogos podiam distinguir sistematicamente raça e cultura, mas na linguagem popular “cultura” se referia a uma qualidade inata. A natureza de um grupo era evidente a olho nu, expressada igualmente pela cor da pele, pelas características faciais, pela religião, pelos princípios morais, pelas aptidões, pelo sotaque, pelos gestos e pelas preferências de alimentação.

Diferenças assim são citadas por Eagleton (2003) como realce das diferenças de cultura. O autor vai entender que se trata de algo nato, pois, “[…] bom é tudo o que surge autenticamente das pessoas, não importa quem sejam elas”. (EAGLETON, 2003, p. 27)

De modo geral, entendemos que a definição de Kuper é a que mais se aproxima da realidade. Todos descobrem ter uma cultura porque ela é passada de geração para geração, uma herança de hábitos e costumes adaptada, de acordo com o tempo, aos contextos vigentes. A identidade é algo que faz o indivíduo se sentir como parte integrante de uma nação, por exemplo, enquanto a cultura pode ser alvo de apropriações. Segundo Augé (1994, p. 53):

[…] o lugar é necessariamente histórico a partir do momento em que, conjugando identidade e relação, ele se define por uma estabilidade mínima. Por isso é que aqueles que nele vivem podem aí reconhecer marcos que não têm que ser objetos de conhecimento.

Se considerarmos o contexto que abordaremos, temos de levar em conta uma cultura da tecnologia, uma cultura híbrida em que formas conhecidas de recepção se transformaram em novas demandas. Nas palavras de Marques de Melo (1998, p. 25), “permanecer isolados dentro das fronteiras nacionais, atemorizados pelos velhos fantasmas dos imperialismos, é optar por estratégias suicidas”. (MARQUES DE MELO, 1998, p. 25)

A transmissão cultural é uma das preocupações de Thompson (1995) que considera isso um “[…] processo pelo qual as formas simbólicas são transmitidas dos produtores aos receptores” (1995, p. 220). O autor leva em consideração que essa transmissão se sustenta por uma série de características que se resume ao meio técnico de transmissão, aparato institucional de transmissão e o distanciamento espaço-temporal implicado na transmissão.

O meio técnico de transmissão é, segundo Thompson (1995), como uma forma simbólica é produzida e transmitida dentro de um sentido de fixação da mensagem. O aparelho institucional é “[…] um conjunto específico de articulações institucionais dentro dos quais o meio técnico é elaborado e os indivíduos envolvidos na codificação e decodificação das formas simbólicas estão inseridos”. (1995, p. 224). E, por último, o distanciamento espaço-temporal corresponde ao “[…] desligamento dessa forma, em vários graus, do contexto de sua produção; ela é distanciada de seu contexto, tanto espacial como temporalmente, e inserida em novos contextos que podem ser localizados em diferentes tempos e locais”. (1995, p. 225)

Como podemos notar, Thompson (1995) estabelece as relações da cultura com a intervenção dos meios de massa. No caso da TAL TV, tais características se associam. Afinal, a TAL é um meio de comunicação e o que analisamos, por meio do audiovisual, são seus produtos culturais. Não se pode deixar de observar que os media são construtores da cultura.

Nesse sentido em que a comunicação possibilita a todos que acessarem o sítio da TAL terem conhecimento de produtos audiovisuais, é por onde permeamos a ideia de integração. Partindo do pressuposto que os países selecionados para nossa análise se compuseram a fim de buscar uma integração econômica, há duas décadas, procuramos avaliar se o mesmo ocorre no sentido cultural de modo que cada nacionalidade compreendida nesse contexto entenda, reconheça, se identifique ou se diferencie dos demais países mostrados. Como definem Barañano, Garcia, Cátedra e Devillard (2007, p. 193):

[…] “intimidad cultural”, aquella peculiar sensación de pertenencia e confianza cuasifamiliar basada en “el reconocimiento de aquellos aspectos de la identidad cultural que, aunque desde fuera sean considerados como fuente de desconcierto, proveen a los enterados con la promesa de una sociabilidad compartida. (BARAÑANO, GARCIA, CÁTEDRA, DEVILLARD, 2007, p. 193)

A comunicação pode facilitar essa sociabilidade compartilhada e a intimidade cultural. A primeira condição com mais chances pelo meio técnico de transmissão. Já a segunda possibilidade vai penetrar mais pelas individualidades porque se sustentará pelo pertencimento. Esperamos que por seu sentido de troca, a comunicação possa exercer sua função em tal sentido embora seja compreensível também que se trata de uma individualização cultural gerada por reconhecimento dos bens simbólicos e, consequentemente, as formações de cada indivíduo. Para Gerbner (1967, p. 58), “Comunicação, no sentido “humanizador” mais amplo, é a produção, percepção e entendimento de mensagens portadoras das ideias humanas do que existe, do que tem importância e do que está certo”.

É importante considerar esse tripé de Gerbner – produção, percepção e entendimento de mensagens – já que qualquer comunicação é intencional. A mensagem carrega um ideal de quem a produz com objetivo de provocar modificação no receptor. Seja no modelo tradicional (o emissor envia mensagem ao receptor) ou no modelo tecnológico (em que emissor e receptor trocam continuamente de papel no fluxo da informação), é certo que nenhum conteúdo se dissemina sem uma intenção. As análises que nos propomos a fazer dessa série cultural, “Os Latinoamericanos”, é um recorte da cultura, mas, com roteiros que vão definir qual a mensagem construída que pode ecoar ou provocar reação em quem pretende encontrar por meio disso a identidade. Reforça Gerbner (1967, p. 73): “o cultivo de padrões de imagens dominantes é a principal função das organizações de comunicação dominantes em qualquer sociedade”.

A temática também se explica em Charaudeau (2007). Ao tratar das instâncias de produção e recepção, é abordado que o público não se deixa seduzir facilmente e que segue seus próprios ideais. Sobre a possível relação de troca, o autor considera a ausência física dos receptores. “[…] a instância midiática não tem acesso imediato a suas reações, não pode dialogar com eles, não pode conhecer diretamente seu ponto de vista para completar ou ratificar a apresentação da informação”. (CHARAUDEAU, 2007, p. 79).

Alguns inconvenientes podem ser apontados preliminarmente na TAL TV. O primeiro deles é a dificuldade de reconhecimento da Web TV como veículo de comunicação. Como conceitua Bucci (2011):

A internet não é televisão, não é rádio, não é jornal, nem revista, assim como não é correio ou telefone. Ela contém tudo isso ao mesmo tempo – mas contém muito mais que isso. Existem canais de TV e de rádio na internet, é bem verdade. Os jornais estão quase todos online, bem como as revistas, sem falar no correio eletrônico: as pessoas trocam mensagens, como trocavam cartas.

Os produtos audiovisuais da TAL circulam pelos canais públicos cuja audiência é ínfima. Além disso, embora na Era da Convergência, o acesso ao sítio pode ser restrito porque ainda existe público com dificuldades de adaptação tecnológica bem como de acesso. Há a questão cultural de que, para muitos, televisão mantém seu suporte tradicional. E ao pensar nessa liberdade da Internet, raros serão aqueles que vão se interessar por conteúdos desse gênero.

Ao que corresponde às produções audiovisuais da TAL TV, selecionadas para este artigo, antes de introduzi-las, apresentamos suas fichas técnicas. Vale reforçar que o Brasil ainda não conta com um vídeo sobre seus aspectos culturais no cenário latinoamericano. O vídeo Los Paraguayos tem duração de 54 minutos com a direção de Marcelo Martinessi. Chama-se Das origens guarani ao Paraguai contemporâneo: uma história de contrastes. Do Uruguai, a diretora Mariana Viñoles produziu Los Uruguayos, Palavras reveladoras de um país pequeno por natureza e grande no espírito. O vídeo tem a duração de 52 minutos e 40 segundos. Luís Esnal, em Los Argentinos: 13 mil km de diversidad y conflicto, retratou a cultura do país em um vídeo com 54 minutos de duração.

A Produção Audiovisual Paraguaia

O documentário que retrata o Paraguai começa com os indígenas em meio à área rural. Aliás, o país carece de estrutura, em especial, nas zonas mais afastadas. Com trilha musical adequada ao ambiente, o vídeo traz o depoimento de um representante desse povo afirmando que ali se mantêm rituais e a antiga cultura. O roteiro explora o conceito de “terra sem mal”, pois, para os guaranis, morrer não é ideal. Essa crença é reforçada pelos depoimentos de um sacerdote jesuíta, um antropólogo e da ministra do Turismo do Paraguai. Todos com acentuado apelo local, reforçando o sentido dessas crenças. Os próprios guaranis explicam seus rituais dentro de uma contextualização histórica que traz como exemplo o fato deles entenderem a colonização da América como um mal.

Um sentido de hibridização cultural se encontra em Yaguarón onde estão as missões franciscanas que adaptam a música europeia com a língua local. Essa língua é o guarani, umas das 17 que o paraguaio fala. Resultado de uma formação de muitos povos, a cultura guarani é decisiva para a formação do Paraguai. É um povo que acredita na perpetuação da raça e confia muito em pedidos religiosos pelos quais agradecem ao serem alcançados. A abordagem do vídeo sobre identidade, no Paraguai, se refere a uma construção a partir do que o paraguaio é e o que ele deseja e quer ser.

Um Paraguai de lutas sangrentas também é revelado na produção dirigida por Marcelo Martinessi, principalmente, no depoimento de um nacionalista convocado para a batalha da Paz do Chaco. O território de Humaitá é o símbolo da resistência de guerra do Paraguai, que no caráter da luta, aponta para um grande patriotismo expressado na seguinte frase do Marechal Solano Lopez: “Morro por minha pátria” ou “Morro com minha pátria”.

Outra faceta revelada, no vídeo, é o Paraguai feminino. Há imagens de uma artista passeando por uma feira em contraste com uma ceramista da zona rural. O confronto entre rural e urbano. Aliás, enfocam-se as imagens de Asunción, a capital do país, onde charretes dividem espaço com ônibus e carros. Aplicamos a isso Canclini (2006, p. 285): “sem dúvida, a expansão urbana é uma das causas que intensificaram a hibridação cultural”. São as personagens que conduzem esse trecho de narrativa com a proposta de mostrar que, mesmo em condições adversas de produção, estão engajadas na construção do país. O feminismo paraguaio está no centro urbano e nos lugarejos. Em determinado trecho, exibe-se uma cantora sobre um burro com imagem sobreposta a uma senhora que usa tal animal como meio de transporte. O resultado dessa abordagem feminista é que a mulher paraguaia é independente tanto profissional como pessoalmente. Um exemplo mostrado para justificar isso é que o país possui um grande número de mães solteiras.

Uma informação trazida é de que o Paraguai forma-se por 80% de analfabetos e 20% de uma burguesia ignorante. Nessa ilha rodeada de terra, o escritor Carlos Villagio define o paraguaio com espírito de isolamento, um conceito atribuído pelos paraguaios a Alfredo Stroessner que fez questão de deixar o Paraguai sem cabeças pensantes. Sinal dos 35 anos da Ditadura Militar, rígida no país, pelas perseguições e inúmeros mandos e desmandos autoritários. A música e a pintura foram os movimentos mais fortes de expressão contra o Regime.

Como se assumem os paraguaios? Integrantes de um país convergente a todas as nações com povos hospitaleiros e amigos embora aqueles que estão mais distantes da urbanização sintam uma dificuldade de reconstrução atribuída particularmente ao sentido do “fazer” das autoridades.

A Produção Audiovisual Uruguaia

É com um tema de Carlos Gardel, o mito do tango, que começa o documentário sobre o Uruguai. A música ecoa por áreas da zona rural uruguaia por meio de uma emissora de rádio. O local escolhido? Tacuarembó, no interior do país, local de nascimento do cantor para aqueles que o entendem como uruguaio4. Uma família de produtores rurais acredita no conterrâneo que levou o gênero musical rioplatense para o mundo. Logo a obra dirigida por Mariana Viñoles exibe um programa de rádio no qual a equipe de produção do documentário concede uma entrevista sobre a produção. Em muitos momentos, Viñoles intervém como “narradora” para dar sentido de intervenção junto ao entrevistado.

As imagens dão a noção de traçar um perfil dos uruguaios. Estão em close, inclusive, com suas auto definições descritas por representantes selecionados do Club Atlético Cerro: “amável, cordial, abertos ao diálogo, à espera de estrangeiros”. Assim se julgam. As personagens são muito exploradas, nesse documentário, para traduzir uma ideia, digamos, mais real do que é o uruguaio. O interior do Uruguai representa um lugar tranquilo. Ruas de paralelepípedo e carros antigos estão em constante valorização do discurso imagético, em baixa definição e algumas vezes desfocado, da TAL TV. Mas há outra condição interessante no que se refere às imagens: muitas delas, na edição, foram construídas sob uma ideia de retrato fotográfico, ou seja, uma “paralisação” do tempo que entra para a eternidade como momento único.

A primeira manifestação mais crítica surge das palavras de um artesão que julga o governo de esquerda do país como o causador de sofrimentos. Aí entra a noção de individualidade atribuída por Barañano, Garcia, Cátedra e Devillard (2007). Enquanto um faz críticas, uma mulher preparando uma carne, na cozinha, diz que não troca sua nação por nenhuma outra.
A cidade de Rivera desponta como um local diferenciado do país onde se fala portunhol (junção do português com o espanhol) e há Carnaval. Tanto que o entrevistado grava nesse dialeto que contempla, inclusive, alguns vocábulos em Língua Portuguesa.

Quando o roteiro sai do interior, segue para a capital Montevideo. A abertura é com imagens da Avenida 18 de Julio, a principal da cidade. A primeira abordagem é um contraste de estilo de vidas. A narrativa compara um advogado que trabalha em um escritório a um estudante que vai deixar o país rumo à Espanha onde cursará pós-graduação em Comunicação. Isso já retrata um sentimento comum a todos os uruguaios: ser um país mais velho por falta de oportunidades aos jovens. O garçom de um café, entrevistado para o documentário, reforça isso e diz que quando o uruguaio trabalha em seu país é preguiçoso. Quando sai, se torna trabalhador.

Numa paixão muito similar à de brasileiros e argentinos, o uruguaio também aprecia o futebol. O documentário aborda um jogo, o entorno do estádio em dia de partida, pessoas ouvindo transmissão de rádio e torcedores acompanhando confrontos em bares.

Em suma, o documentário que a todo instante reforça pela linguagem sua proposta de revelar quem são os uruguaios revela um país bom sentimentalmente e complicado economicamente. Uma zona rural com construções precárias, carentes de estrutura. Há lugares onde ainda se cozinha com fogão de lenha. O ideário de tranquilidade é muito frequente. Acentuado no interior, também se reforça pelas ruas de Montevideo, capital cujo consciente coletivo imaginário nos coloca em um local moroso, sem agito.

A Produção Audiovisual Argentina

O esforço de produção do documentário é registrado logo nos primeiros minutos. Logo após as imagens de Buenos Aires, é exibido um making off de filmagens em preto e branco. Cinco documentaristas percorreram as províncias argentinas, durante 1 mês, totalizando 13 mil quilômetros viajados. Isto corresponde à introdução da proposta do diretor Luís Esnal em mostrar a atual cultura argentina.

O primeiro destino é a província de Entre Rios mais precisamente em Basavilbaso, a primeira colônia de judeus da Argentina. Ali mostram a intelectualidade do judeu e recuperam os atentados de julho de 1994 contra uma associação da raça em Buenos Aires.

A viagem continua e para em Posadas, na província de Misiones onde a influência cultural vem do mundo árabe. Misiones era um território nacional, e não uma província, por isso o grande número de imigrantes que foram para lá. Uma constituição de um processo de hibridação cultural. Nas origens, os habitantes de lá falavam guarani. Aliás essa cultura nativa tenta se manter em uma aldeia guarani próxima às Cataratas do Iguaçu onde o documentário registrou e mostrou o costume, argentino e uruguaio, de tomar o mate.

O terceiro destino é Santiago Del Estero. Em meio ao nada, o documentário reproduz seu making off e retrata uma família de carvoeiros que ali vivem. Na província de Jujuy, em Humahuaca, destaque para a cantora Maryta. Com sua música tradicional local, ela estabelece a diferença de seu povoado com Buenos Aires. Segundo ela, a chegada na cidade grande indica que cada novo habitante leva sua cultura ao passo que a chegada ao local pequeno, como Jujuy, representa se integrar à cultura. O roteiro termina, nesse local, com imagens de um baile de Carnaval. Tilcara e Salina Grande também são abordados. Na primeira, uma aparência de local desértico cuja formação, antes da independência argentina, se baseava no Chile, Peru e México e suas formações indígenas. A segunda localidade tem como fonte de renda a extração de sal branco para venda e suas relações culturais são mais próximas da Bolívia devido a aproximação geográfica.

A província de Salta é o primeiro lugar mais moderno abordado no documentário. Há uma forte percepção da cultura religiosa. Lá existem edificações, carros, mais gente pelas ruas. Um local onde a mestiçagem começa pela culinária com a produção de empanadas. Um detalhe curioso é que, mesmo em espanhol, o áudio original é legendado por conta dos dialetos originados pelo idioma.

Em Tucumán onde a Independência da Argentina foi declarada, a cultura se preserva como memória na Casa da Independência. Assim como Salta, nota-se uma província mais bem estruturada com prédios, carros e mais gente nas ruas. Mendoza se caracteriza pela cultura do vinho, introduzido por jesuítas do Chile que originalmente produziam a bebida para missas. Assim surgiu o Malbec. Com a presença significativa da imigração italiana, essa cultura aumentou e se tornou como um dos cartões de visita da Argentina.

Neuquén tem um dialeto destacado: o “mapuche”. Lá está reunido um povo com espírito de manifestação, especialmente, por meio de pinturas em paredes. Mais de 24 povos dessa província se caracterizam pela relação dominantes versus dominados. O êxodo rural se deu acentuadamente em busca de trabalho e estudo. Há uma hibridação cultural de convivência paralela: a argentina e a chilena. Na província de Rio Negro, destaques para a Patagônia e Bariloche. Novos centros de turismo do país, a Patagônia tem uma imigração centro-europeia recente com forte traço da influência alemã. Em termos de paisagem, o documentário a define como paradisíaca. Bariloche também segue essa tendência com belezas naturais explorados tematicamente pelo turismo. Uma de suas especialidades é a produção de chocolate. Em Chubut, uma cultura em definição quanto a território. Um plebiscito decidiu se a população local seria argentina ou chilena. Venceu, na escolha, a Argentina. De característica interiorana, aspira ser a Patagônia. Navios transatlânticos já passaram pelo local onde os habitantes entendem que a chegada de pessoas gera novas contribuições para o desenvolvimento.

Para finalizar o roteiro, a viagem termina na cidade grande: a província de Buenos Aires. Na capital, tudo começa pelo pitoresco bairro de La Boca, a porta de entrada para o emigrante. Suas principais atrações são os cortiços onde esses aventureiros do interior se hospedavam, o Club Atlético Boca Juniors e seu estádio, La Bombonera. No discurso da TAL TV, o argentino se define como um apaixonado sempre posicionando-se a favor ou contra. Os problemas de toda a cidade grande também são abordados. Caso das favelas. São muitas, porém, a obra trata de que esse ambiente é um estereótipo: 50% marginais, 50% com chances de ser bandidos. Ressalta-se muito a formação espanhola da Argentina. Os entrevistados apontam que ou se ia para a Argentina ou se ia para qualquer outra parte da Espanha. O imigrante – que vinha em busca de trabalho – entrevistado credita a isso uma destruição de culturas. Quase perto do fim, é abordada rapidamente a questão do Golpe Militar e para terminar em alto astral a imagem mais típica desse povo: um baile de tango, patrimônio cultural de Buenos Aires.

Sem a Produção Audiovisual Brasileira

A subvenção da TAL TV vem do governo brasileiro ao patrocinar suas produções com legislação específica de financiamento à cultura. Nos vídeos da Argentina e do Paraguai aparece o patrocínio da PETROBRAS. Mas nem isso fez com que fosse produzido, nessa série “Os Latinoamericanos” um audiovisual a respeito do Brasil, principal país da América Latina e também do nosso recorte de análise. O site da TAL TV, em seu texto de apresentação da coletânea de produções, anuncia para breve o vídeo de “Os Brasileiros”.

Como nos falta esse repertório para análise, resolvemos buscar em Bosi (1987), as explicações para nossa identidade cultural. O autor não atribui ao Brasil uma cultura única, pois, aqui há um processo de múltiplas interações e oposições no tempo e no espaço. Segundo ele (1987, p. 7), “[…] não existe uma cultura brasileira homogênea, matriz dos nossos comportamentos e dos nossos discursos”. Toda essa multiplicidade com diversos ritmos das culturas no Brasil, na visão de Bosi, leva nossa cultura ao caos. Dentro dessa gama de ofertas, Bosi (1987, p. 10) acredita que “[…] da corrente de representações e estímulos o sujeito só guardará o que a sua própria cultura vivida lhe permitir filtrar e avaliar”. Por essa leitura, como deveríamos pensar as representações culturais dentro de um roteiro audiovisual do Brasil para essa Série “Os Latinoamericanos”? Se comparado aos que analisamos, arriscamos dizer que seria um produto muito parecido a “Los Argentinos” que buscou mostrar a diversidade daquele país. Certamente sobre o Brasil muitos documentários, nesse sentido, podem ser produzidos com temáticas de Carnaval, Futebol, Samba, Natureza, Diferenças idiomáticas, etc…

Considerações Finais

A Era da Convergência consolida a Sociedade da Informação por meio do acesso, possibilitado, em especial, por uma linguagem de dados da tecnologia. Cultura e Tecnologia formam a Tecnocultura, conceito de Sodré, que se solidifica na intenção da TAL TV ao reproduzir séries culturais latinoamericanas.

As produções da série analisada, neste artigo, reforçam que a Identidade é realmente um conjunto de apreensões individuais. Entre os argentinos, percebe-se a diversidade cultural construída por estratégias de aproximação geográfica; a hibridização provocada pelos imigrantes; os reflexos culturais do êxodo; a convivência dual entre tradicional e moderno nas províncias; o patriotismo exacerbado e o sonho mais os problemas por quem escolheu a cidade grande (Buenos Aires).

Os uruguaios identificam um país rural, de vida simples onde há medo das mudanças e quem opta por uma vida melhor vai para o exterior, pois, em sua nação falta perspectiva. Já os paraguaios lutam para preservar a cultura por meio da memória. Seu povo, subjetivo, é homogêneo ao passo que o país é pobre, dependente da economia do primeiro setor. Busca quais caminhos seguir. Aliás, isto se reforça na linguagem do documentário quando a narrativa se associa a imagens de um barco no rio e de um trem. O que há em comum é que todos sentem orgulho de ser paraguaios.

Os brasileiros não estão retratados, mas sabemos que se trata de um país com cultura heterogênea, com um povo alegre que supera as dificuldades existentes – em especial as sociais geradas pelo desequilíbrio da distribuição de rendas – mesmo sendo, atualmente, uma nação emergente.

Em todo esse cenário recortado da série “os Latinoamericanos” mais os conceitos de Identidade tratados por Augé (1994), observa-se que pelo discurso da TAL TV e de um teórico brasileiro, Argentina e Brasil têm uma identidade partilhada, isto é, de certa forma se relacionam. Em especial, pela diversidade e avanços como as diferenças culturais e a busca da cidade grande, esta mais diluída no Brasil e mais concentrada na Argentina. O Paraguai possui uma identidade particular, pois, almeja chegar a algum lugar em relação aos outros. O Uruguai possui uma identidade singular. Um país achatado tanto em tamanho quanto em economia por falta de perspectivas de desenvolvimento.

REFERÊNCIAS

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THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.

Jornalismo e Interfaces Comunicacionais: A Notícia no Aplicativo

Pofessor Rodrigo GABRIOTI

O cenário de interfaces proporciona ao jornalismo novas experimentações capazes de rever sua estereotipia como amostragem de realidades a partir do agendamento e controle da vida social pelos grandes conglomerados noticiosos ou simplesmente de meios que se propõem a reunir aquilo que subjetivamente se tacha como importante, a saber, dentre fatos cotidianos. Ao levarmos em consideração que o Jornalismo representa uma das ramificações da Comunicação Social, não há como deixar de considerar que embora um subcampo, ele talvez seja o mais afetado por tantas e rápidas transformações comunicacionais que propiciam a convivência entre práticas tradicionais e modernas convertidas em possibilidades analógicas ou digitais. Essa afetação ocorre porque, de certa forma, todos são capazes de produzir comunicação.

Aliás, em tempos que a mobilidade favorece de qualquer ponto uma condição de transmissão, é reconhecida a capacidade de expressão dos indivíduos. Nesse particular, é interessante distinguir os atos distintos de produzir Comunicação e Informação. Qualquer mensagem de um polo emissor, seja ela de qual valor ou intenção, corresponde ao ato de comunicar. Nesta condição existente de que o jornalismo se abriu à colaboração das pessoas, o simples fato de um cidadão comum fazer chegar à redação a foto de uma rodovia congestionada por conta de um feriado prolongado, por exemplo, não quer dizer que se trata de uma informação. Essa atitude representa uma comunicação, ou seja, a intenção de quem enviou a imagem nada mais é do que alertar quem produz as amostragens da realidade de que aquilo pode render notícia. Nesse particular, é que entra o trabalho do jornalista profissional cuja função é exercer o trabalho de apuração, abastecendo-se de todas as informações a serem convertidas em prestação de serviço ao público. Assim, Informar é apurar e Comunicar é registrar um momento.

Faz sentido agregar a esse momento a cultura como produção, circulação, apropriação e transformação do significado conforme propõe Mato (2013). Analisando isoladamente cada uma dessas condições, a produção jornalística não está mais somente nas mãos dos grandes conglomerados; a circulação não depende mais de horários de exibição ou de dias de publicação de certos produtos uma vez que, como define Castells (1999), estamos em uma sociedade em rede onde a comunicação interativa de base eletrônica e transmissão digital organiza o conjunto das práticas sociais do planeta em termos da interação do global e do local; diante de tanta oferta, a apropriação tem mais variáveis e a transformação se converte pelos modos de produção jornalística.

Tomando por base a perspectiva de Silva (2013) de que o virtual é o novo suporte e o atual contexto de que a digitalização atravessa indiscutivelmente o dia a dia da sociedade, a cultura, segundo Bauman (2011), se especializa na administração das escolhas humanas. Aliás, bem observa Carr (2011), de que a espécie humana é a única capaz de se fundir com a ferramenta. Trocando em miúdos, trata-se da perspectiva mcluhaniana de que os meios são extensões do homem. Perspectiva também compartilhada por Lanier (2011) ao dizer que webcams fazem vezes de olhos; os celulares, de ouvidos. Em suma, é o online como memória expandida.

Apesar de novas cognições propiciadas pelos adventos tecnológicos contemporâneos, o aspecto humano é atemporal no que tange às práticas comunicacionais. Mesmo quando Latour (2012), na Teoria Ator-Rede, observa que os mediadores no papel de actantes não precisam necessariamente ser humanos – de acordo com o autor, Ator é humano e Atuante, não humano, ou seja, os artefatos tecnológicos têm importante participação na construção da solidez – não há como descartar a noção antropológica dos estudos de comunicação. É inerente ao homem a condição de intencionalidade no processo comunicacional. Assim o entendimento mais preliminar de comunicação ainda vigora quase como uma filosofia. Charaudeau (2007) trata por Discurso Comunicacional a composição estruturante da Enunciação, Transmissão e Recepção. Sempre alguém vai transmitir algo para alguém. Diferem os meios e os modos de se fazer isso.

Embora o discurso da digitalização e de tecnologias mais modernas como os celulares e computadores demonstre um momento efervescente, em hipótese alguma, podemos abrir mão de outros momentos da história da comunicação em que práticas e inventos tiveram valores impressionantes. Com isto, queremos dizer que a escrita e o audiovisual ao surgirem, tiveram suas patentes à cultura, à sociedade, à tecnologia e à comunicação. Parece um velho clichê, mas não deixaremos de ouvir que jamais um meio substituiu outro. O que mais consegue dar conta de explicar essa convivência entre tradicional e moderno é a aplicabilidade da Cultura da Convergência (Jenkins, 2008). Mais do que a coexistência entre o que o autor considera, como velhas e novas mídias, está o processo de transformações tecnológicas, mercadológicas, culturais e sociais.

É um ecossistema que se forma, pois, nesta perspectiva, estamos tratando de desenvolvimento tecnológico, muitas vezes oferecido por questões de mercado, que muda as noções culturais e sociais. De que forma? É cada vez mais notório que o ser humano não se desvencilha da tecnologia que vem impondo a cada um a condição de isolamento. Não é raro encontrarmos em grupos a intervenção, quiçá, mediação do virtual. Dificilmente em uma roda, não haja um refém de um aparato tecnológico, em especial, o celular. Aliás, diga-se de passagem, o fetiche pelo celular, floresce uma vez que ele deixou de ser exclusivamente um meio de fazer e receber chamadas telefônicas. Cada vez mais, eles se tornam um conjunto de suportes reunidos em um único aparato. A isso, Helles (2013) denomina affordance, ou seja, a complexa influência das tecnologias nas formas pessoais de comunicação. Segundo ele (2013. p. 14), “[…] the central affordance of mobile phones is not the mobility of the device per se, but rather the fact that the user becomes a mobile terminus for mediated communicative interaction across the various contexts of daily life”.

Tais práticas sociais são um avanço significativo ao longo do desenvolvimento da televisão, um meio que no Brasil, tem importante grau de relacionamento com as pessoas. Há mais de 60 anos, por aqui, a TV se desenvolveu. Imaginemos décadas atrás o quão difícil era uma transmissão. Os enormes aparatos técnicos se transformaram em obsoletos. Faltava cor ao sinal televisivo. Agora ela chega ao ponto de convergir com outras mídias como a Internet. A evolução tecnológica não ocorreu somente nas emissoras, mas também, nos aparelhos receptores. É só pensarmos que do preto e branco, ela chegou ao digital. As técnicas de improviso recorrentes em muitos lares para evitar chuviscos e imagens duplas, conhecidas por fantasmas, hoje primam pela qualidade em HD e 3D, entre outras inúmeras possibilidades.

A TV no Viver Digital

Colocar a televisão entre uma onda de digitalização, como um costume antropológico, no qual vivemos atualmente de várias formas é o nosso objetivo. As manifestações digitais seguramente formam um avanço cultural, pois, estão incorporadas ao cotidiano do ser humano. Silva (2013, p. 54) diz que “cada tecnologia cria seu imaginário, sua mitologia, sua necessidade e seus defensores”. Assim o homem consegue retornar ao epicentro da comunicação justamente por ter em mãos a condição de produzir conteúdos. A isso, Carlón (2013) descreve como ascensão dos indivíduos na história da midiatização. Fotografar, filmar, interagir, dar check in em locais onde se está, mostrar-se pelas Redes se tornaram hábitos da cultura digital. Como observa Castells (1999), a tecnologia acaba por estruturar a sociedade em Produção, Experiência e Poder em que palavras, sons e imagens das culturas se personalizam ao gosto das identidades e humores dos indivíduos.

A principal mudança que observamos, neste advento digital, é o envolvimento efetivo do indivíduo nos processos, o que de imediato, levanta a questão da troca contínua entre emissores e receptores no fluxo comunicacional. Não cabe mais somente compreendermos os fenômenos admitindo sua estrutura de massa envolvendo emissor, mensagem e receptor.

Evidentemente essa nuance permanece, mas exige novas compreensões. Em um ambiente comunicacional pós-moderno no qual o ser humano se faz presente, mesmo que virtualmente, cabe-nos indagar qual é o local da televisão nessa cultura digital. Se Internet e celulares avançam na possibilidade dos atores sociais estarem no centro dos processos comunicacionais, é um desafio pensar como um dos meios massivos mais idolatrados no Brasil, e também na América Latina, vai se portar nesse contexto espaço-temporal. Embora veterana, a televisão, como série cultural digital, larga atrás de outras conexões que permitem o que já vem sendo denominado de Comunidade do Afeto. O conceito de Paiva (2013) envolve a tecnologia e o altíssimo fluxo de informação a partir de novos mecanismos de conexão em busca do bem comum.

Não podemos partir para a discussão de um bem comum sem antes demonstrar que isso envolve a participação. Aliás, o envolvimento que confere a muitos uma perda de passividade para graus de atividade é também uma denominação dentro da cultura, isto é, a cultura participatória. Segundo Shirky (2011), isto envolve a inclusão de amadores como produtores e nesse tecido conjuntivo da sociedade, que é a mídia, o acesso rápido e interativo reestrutura a característica estável longeva social de que o excedente de tempo livre era para assistir televisão cujos efeitos e dosagens por muito tempo estão sobre a cultura como um todo.

A Internet promove mais entretenimento às pessoas que buscam aquilo que querem para se satisfazer ao passo que em meios massivos ainda estamos à mercê dos mandos e desmandos da Indústria Cultural. Não que para os dispositivos móveis, não estejamos, afinal para se conseguir acessibilidade, temos que encontrar meios para isso como a aquisição de aparatos e as condições de acesso à Internet. Algumas lógicas são permanentes. Mas o que nos vale é se atentar ao comunicacional. Esse diapasão de convivência, a qual Jenkins (2008) trata como interações complexas vai denotar evidentemente válvulas de escape para que os meios se mantenham. Também não podemos assumir a digitalização como única forma de expressão comunicacional. Sabe-se muito bem que o acesso não está generalizado e que em um país, como o Brasil, não há condições totalmente igualitárias, seja econômica ou geograficamente dizendo.

Mas a televisão é sedução, um elemento gerador de audiência que cria identificação com o receptor, ávido por se ver na tela. E como os meios de comunicação, avançados ou não, também integram o mercado, posições estratégicas são necessárias. Com isso, além de manter sua audiência, as emissoras perceberam – ainda que timidamente reconheçam – o avanço da Internet e a migração do público. Para evitar isso, afinal Jenkins (2008) diz que cada um que for para a Internet não volta mais para a televisão, os canais – denominação muito comum para se referir às emissoras brasileiras e também latinoamericanas – passam a entender a complexidade do momento ao notarem o avanço da participação, isto é, a constituição da comunidade do afeto. Assim, a nosso ver, buscam se inserir institucionalmente nas conexões com uma fórmula de sedução: a interatividade, condição que ainda atribuímos como pretensa nos meios tradicionais ao se “abrirem” às possibilidades de colaboração do público na produção noticiosa.

As estratégias do Jornalismo

Característica comum no rádio com a participação do ouvinte, principalmente, nas declarações sobre o trânsito em grandes cidades, o envolvimento do público também chega à televisão. Com isso, podemos buscar bases para discutir o Bem Comum, retratado na Comunidade do Afeto. A enorme possibilidade, oferecida pela Internet de transitar por aquilo que nos interessa e muda o nosso entorno, acende praticamente uma luz amarela nos meios de comunicação tradicionais. Toda audiência, em especial dos meios de massa, depende da iniciativa midiática para abordar uma questão. O buraco na rua, o trânsito ou o lixo acumulado por uma cidade atrapalham o dia a dia e se tornam preocupações para o bem comum. Porém, na imprensa como um todo, essas situações vem à tona alicerçadas por processos de construção das notícias, em especial, os critérios de noticiabilidade. Embora seja fato, é importante destacar que existe uma lacuna nessa questão de noticiabilidade entre o mundo acadêmico e a prática jornalística. Os motivos que levam um fato a ser notícia têm uma análise, na academia, que se prende a denominações que, nas redações, atendem outras expectativas e necessidades que se encaixam a responder uma pergunta corrente, porém, simplista: “vale ou não vale?”. A resposta a isso se dará por meio da subjetividade dos profissionais da notícia.

Falar em institucionalização da imprensa sobre essa pretensa interatividade envolve o espaço público para o debate social. Dominadora da agenda social, a imprensa vai escolher o que merece discussão sob a perspectiva do discurso determinante. Um revés ao que se pratica hoje nas redes sociais, em que quase tudo se comenta ou se compartilha. Longe deste artigo está analisar intenções e verdades de cada discurso, seja ele midiático ou individual. O que vale analisar, segundo Charaudeau (2007), é o discurso informativo que deve prezar pela credibilidade uma vez que trabalha com o pressuposto da verdade. De qualquer forma, ocorre uma dicotomia nos fluxos de informação.

Se ao jornalismo cabe focalizar as amostragens da realidade, o bem comum também busca isso só que de forma mais individualizada, particular, pois, os problemas mais próximos se tornam a principal preocupação das pessoas. De modo geral, todo acontecimento é uma reconstituição em discurso. A diferença é que, na era das conexões, as pessoas discursam de modo particular ressaltando tudo que as incomodam ao passo que na instância midiática, o discurso busca um olhar estendido, construído por meio da reportagem.
Aleatoriamente ao bem comum, é fato que os meios de comunicação como integrantes da cultura precisam acompanhar toda a evolução ou pelo menos se inserir em parte dela. Quando o jornalismo se abre ao público é porque ele se dá conta de que não dá mais para estar em condição soberana, pois, mercadologicamente isto lhe acarretará perdas uma vez que a distante, mas idealizada e constituída Aldeia Global, nos anos 60 por McLuhan, que previa mudanças na forma de pensar e comunicar, está mais do que concretizada nesse estado de conectividade.

A imagem supervalorizada da TV não precisa mais estar nela, sendo que pode se reproduzir nos mais diversos dispositivos móveis. Mais uma mudança para o modelo comunicacional outrora vigente. Segundo Helles (2013), isto representa uma passagem do “One to Many”, pertencente à televisão, para o “Many to Many”, nos dispositivos em rede. Ou como diria Castells (1999), uma transição da Comunicação de Massa para a Auto Comunicação de Massa.

O Aplicativo Jornalístico

Um dos objetos comunicacionais mais recorrentes desta era digital são os aplicativos, reconhecidos pelo signo APP´s, e inseridos na cultura dos usuários da mobilidade que encontram para tudo um aplicativo. Seja para pedir um táxi ou um programa de fotos, por exemplo.

Como ainda a televisão disputa seu lugar no contexto digital, tudo o que este venerado meio oferece, em termos de interatividade, ou até mesmo na condição da imagem se restringe não passa de estratégias mercadológicas e técnicas. O que queremos dizer é que as emissoras lançam mão da pretensa interatividade, muito mais para não perder seu público, do que propriamente alegar novos tempos à sua gramática, pois, sabe-se que ainda pratica o determinar da agenda social. Em contrapartida, o HD (High Definition) e o 3D se tornaram a condição mercadológica de dizer que atualmente a televisão tem mais qualidade de imagem e som.

Essas condições abrem excelente discussão no tocante à participação do telespectador nos telejornais. Por mais que as possibilidades surjam, ainda que sob suspeita mercadológica, a prática do telejornalismo ainda não mudou conceitualmente a não ser pelas questões estéticas. De qualquer forma, pela aparência, a televisão se faz observadora das mudanças mesmo que institucionalmente. Vilches (2003) vai dizer que o gênero televisivo se inova graças à uma falsa interatividade, sustentada por sistemas dinâmicos que apresentam a informação por meio de tecnologias de difusão e os efeitos da imagem. Ainda, segundo o autor, a estética televisiva se renova sob uma simulação de interatividade.

Nisso entram os aplicativos de notícias. É por meio do aplicativo Tem Você, da TV TEM, emissora afiliada da Rede Globo, no interior de São Paulo, detentora de 50% da área de cobertura do estado, que nos propomos a fazer uma análise empírica dessa ferramenta de colaboração no processo noticioso da emissora envolvendo o envio de material bem como o aproveitamento de conteúdos recebidos pela ferramenta. O Tem Você foi lançado, em 2013, e é um aplicativo para smartphones com rede de conexão de dados que permite o envio de fotos ou vídeos para a redação da emissora cujo discurso é de que por meio do aplicativo, o telespectador mostra um problema no bairro, registra um acidente, faz uma imagem diferente, isto é, “faz notícia”. Segundo Coutinho (2012, p. 26-27), Com a possibilidade de envio de conteúdo e informação, de diferentes naturezas e códigos (texto, som, imagem e vídeo), pelos usuários, alguns telejornais e demais mídia jornalísticos abriram canais para estimular, ainda que num nível inicialmente discursivo, a aproximação de seu público. (COUTINHO, 2012, p. 26-27).

Para obter o aplicativo Tem Você, o usuário deve acessar a loja virtual do smartphone, de sistema operacional Android ou IOS, e procurar por TV TEM. Após baixá-lo, na tela, é possível direcionar o conteúdo para uma das quatro emissoras (Sorocaba, Bauru, São José do Rio Preto e Itapetininga), além de um termo de cessão que dá direito ao uso de imagens, uma condição jurídica levada seriamente em consideração. Quem envia, preenche um formulário de dados que solicita nome, telefone e e-mail. Há um campo para comentário, no qual, o telespectador descreve brevemente do que se trata o conteúdo enviado.

Uma primeira questão que se pode levantar é o uso do aplicativo como ferramenta indicativa de possíveis pautas ou precarização do trabalho jornalístico valendo-se do discurso do jornalismo colaborativo. A questão da precarização poderia ser levada em conta quando consideramos que se o material for considerado bom pela redação e, sobretudo, houver uma boa imagem, ele vai ao ar. Nesse sentido, poderíamos buscar alguma hipótese no que diz Medina (1988) quando dá ao jornalismo moderno uma definição de observação direta e palpitante quando o repórter vai à rua e constroi sobre o momento a história dos fatos presentes. A partir disso, se lança mão da caracterização do público como repórter? Acreditamos que não pelo fato explicado logo no início deste artigo quando ponderamos as diferenças entre os atos de Informar e Comunicar. A ação do telespectador revela sim, na maioria dos casos, uma preocupação com o bem comum, entendido por Vizeu e Silva (2013) como coprodução, porém, isto se restringe a um registro que demandará da redação o mais importante ato de um jornalista: a apuração para aí sim construir a história dos fatos, como prevê Medina. Além disso, como o nome de quem enviou o conteúdo, se selecionado e entendido como notícia, aparece no telejornal, maior é o número de elementos presentes na TV que possibilitem essa identificação, traz satisfação ao receptor, narcisicamente disposto a encontrar no outro, ele mesmo. Já em relação ao fato de o jornalista estar na observação direta e palpitante, não é possível estar em tudo, assim o aplicativo pode se tornar um ferramental importante no processo construtivo da notícia. Vizeu e Silva (2013, p. 403) ponderam esta situação ao afirmarem que “o cidadão está onde a equipe de reportagem não consegue chegar e, assim, registra e dissemina o acontecimento, seja publicando diretamente na Internet ou mandando para as emissoras”.

Por toda essa descrição, observamos que as possibilidades de convergência entre Televisão e Internet se dão muito mais pela iniciativa de mudança de prática nos indivíduos do que nos processos midiáticos estimulando a transição nas pessoas. Evocam-se as práticas sociais e não apenas as palavras e os discursos como acredita Mato (2013) para quem as experiências de participação são concretas. Com os novos modelos de mídia, novas camadas de identidade ou identificação são geradas na produção e fluxos, segundo Straubhaar (2013), que observa isso como resultado de forças tecnológicas e econômicas que negociam a incorporação e o sentido em uma nova cultura.

Aplicativos e pauta jornalística podem resultar, na visão de Jenkins (2013), conteúdos bem-sucedidos a ponto de se espalharem por outros suportes. Ainda segundo o autor, a noção de obrigações recíprocas e as expectativas compartilhadas sobre o que constitui boa cidadania, dentro da comunidade de conhecimento, desembocam no que se pode chamar de Economia Moral da Informação envolvendo o partícipe como “repórter” ou “pauteiro” (por meio de sua indicação) além da visibilidade pretendida por quem colabora.

Nesse aspecto da participação, como artimanha da cultura digital, onde a Internet propicia o espaço dos fluxos, é recorrente o conceito de Latour (2012) que aponta o emaranhado das Redes como controvérsia que justapõe actantes e argumento em busca da solidez. Nesse particular, consideramos que a controvérsia para uma ponte entre o meio tradicional (a TV) e o meio moderno (o aplicativo) resida na escolha do Jornalismo.

O Aplicativo e os conteúdos… jornalísticos?

A produção de sentido por meio do aplicativo, que como ferramenta é jornalística, nos faz pensar qual realmente é, nas palavras de Sodré (2009), o sistema de decisões discursivas. Temos de antemão uma dicotomia em relação ao aplicativo Tem Você: por um lado, a emissora que visualiza o recebimento de materiais como fonte de informação que origina uma cobertura ou até mesmo a própria divulgação do conteúdo em questão e o público que tem mais uma experiência midiática em mãos por meio de um aparato multifuncional como o celular ou o computador.

Por isto que a preocupação deste artigo ao fazer uma leitura do jornalismo é justamente avaliar por um período determinado – a primeira quinzena de janeiro de 2014 – o aproveitamento de assuntos por parte da emissora. E de modo geral, o tipo de informação recebida pelo aplicativo. Se os conteúdos são noticiáveis ou não, acima disto está o dever jornalístico com o público de tratar de uma verdade reconhecida como tal pelo senso comum (Sodré, 2009). Mas sempre o jornalismo parte de uma premissa. Segundo Sodré (2009, p. 32):

A informação jornalística parte de objetos primariamente tidos como factuais, para obter, por intermédio do acontecimento, alguma clareza sobre o fato sócio-histórico. Só que a positivação do fato é aí associada a um funcionalismo de natureza industrial que define a atividade informativa como mera produção e distribuição de relatos referentes a uma realidade já dada como pronta e acabada.

Passamos agora, então, a analisar de que forma houve aproveitamento de conteúdo jornalístico a partir do Aplicativo Tem Você na primeira quinzena de janeiro de 2014. São centenas de mensagens que chegam à redação. Cabe a produtores e editores, todos jornalistas, analisarem o que é enviado. Entendamos isto como um processo, imediato é verdade. O cidadão, munido de um dispositivo tecnológico em mãos, faz os registros. É salutar, inclusive, saber por que motivos ele se dispõe a fazer o que poderíamos chamar de uma pretensa cobertura. É por apuro jornalístico, visibilidade em relação à aparição de seu nome no meio de comunicação, retribuição financeira ou demonstração das facetas de um aparelho que em princípio teria uma única função? Talvez isto mereça uma análise sociológica, o que não cabe especificamente neste momento. Acreditamos que tal qual nas redações se emprega a subjetividade como metodologia de trabalho, é por este caminho que a pessoa opta ao disparar o botão do aparelho que fará a imagem. Alheio à motivação do envio do material, o jornalista na redação está predisposto a esperar por uma grande contribuição no sentido de que se venha uma grande notícia, não necessariamente positiva uma vez que o que se entende por excelente matéria nem sempre é uma situação excelente.

No período estimado de análise, observamos o que foi ar nas duas edições do telejornal regional Tem Notícias. Aliás até mesmo para a utilização do Tem Você, há uma adoção de linha editorial. Na exibição que vai ao ar ao meio-dia, geralmente, o material a ser usado tem a tendência de revelar problemas mais comunitários sendo que na edição da noite, a preferência é pelo factual. Sempre o Tem Você é entendido como mais uma notícia do telejornal, portanto, a cabeça do material deve ser chamada pelo mais representativo da notícia. Nas duas edições, entre 1º de janeiro e 15 de janeiro de 2014, houve a inserção de 9 assuntos num equilíbrio considerável sendo 5 para o 1ª edição e os outros 4 para o 2ª edição.

O critério aqui adotado para apresentar o conteúdo é por ordem de data. Começamos pelo Tem Notícias 1ª Edição. No dia 6 de janeiro, foram aproveitadas quatro fotos de telespectadores que registraram o arco-íris depois de uma chuva em Sorocaba e São Roque. Além da citação dos nomes de quem enviou, a perspectiva editorial foi chamar para o “pós-chuva” explicando como ocorre o fenômeno e reforçando até as cores que o formam. Já em 7 de janeiro, houve o flagrante de um carro preso em um buraco em Sorocaba. Neste caso em questão, a edição aproveitou no texto, o relato do co-partícipe para construir a narrativa, além do posicionamento oficial da autarquia que responde por buracos ocasionados pelo sistema de tubulação da cidade. Em 9 de janeiro, mais um factual: o choque de um caminhão contra o muro de uma casa em Jundiaí. O conteúdo se limitou à imagem e ao relato do telespectador que enviou o material. No dia 13 de janeiro, uma reportagem sobre um temporal em Sorocaba se valeu muito da participação do telespectador pelo aplicativo com registros que demonstram o verdadeiro sentido colaborativo que o jornalismo pode assumir, principalmente, quando as equipes de reportagem não conseguem dar conta de estar em todos locais ao mesmo tempo.

Agora trazemos os conteúdos veiculados, nesse período, durante o Tem Notícias 2ª Edição. No dia 2 de janeiro, houve o registro de um incêndio que comprometeu a visibilidade de motoristas. A equipe de edição complementou com informações do Corpo de Bombeiros sobre o ocorrido. Em 6 de janeiro, foi a vez do factual de uma carreta tombada em Votorantim. Dois dias depois, 8 de janeiro, o flagrante de um transporte irregular de cargas seguido da explicação do que prevê o Código de Trânsito Brasileiro. Nos dias 9 e 10 de janeiro, a veiculação de dois factuais: o tombamento de um caminhão e outro caminhão que se enroscou em uma fiação elétrica.

Percebemos por esse material uma participação bastante ativa das pessoas que nesses casos conseguiram despertar a atenção jornalística na redação. É evidente, como dizem Vizeu e Silva (2013) que as evoluções tanto da sociedade como dos telejornais mudam a postura dos cidadãos que atuam em conjunto com os jornalistas profissionais no fazer notícia. Entre o envio do material e sua veiculação ou não está o jornalista mais o fato de que informar é levar um fato ao conhecimento de outro nas palavras de Beltrão (2006). De acordo com ele, ao jornalista caberá sempre recolher e narrar os fatos em uma linguagem singela e de fácil apreensão.

Considerações Finais

De modo geral, o que vai determinar esse processo de participação no ambiente jornalístico realmente é o profissional de redação que vai avaliar a notícia, de acordo com critérios de noticiabilidade ou até mesmo na questão de composição do telejornal. Muitas vezes um conteúdo colaborativo pode ajudar a compor uma paginação, preenchendo assim o tempo de produção determinado pela programação das emissoras. Após isso, ainda tem a questão da apuração do fato para que as equipes de edição se certifiquem do que realmente está acontecendo para assim pensar qual a relevância e utilidade ao público. Mesmo com tecnologia e o envolvimento do público na produção comunicativa, hoje em dia, não há como descartar que os meios de comunicação tradicionais ainda estão presos aos paradigmas dos Gatekeepers que seguem funcionando como filtros da informação. Fato é que as demandas contemporâneas colocam ao jornalismo um desafio e tanto já que com a midiatização tão acessível aos indivíduos, o poder de escolha se torna mais fácil. Funcionalmente pensando, os jornalistas seguem os padrões ditados editorialmente. Se não fosse assim, corre-se o risco também de banalizar o aplicativo. Para sustentar isto, separamos algumas temáticas recorrentes dos conteúdos que chegam à emissora. Existem fotos registrando acidentes, animais atravessando a pista, buracos na rua, carro sobre faixa de pedestres, bairro inundado por chuva, arco-íris, desperdício de água e a cidade tomada por lixo em virtude de atraso na coleta. Um grupo de imagens as quais podemos nitidamente atrelá-las a um contexto jornalístico. Em compensação, foram recebidas por meio do aplicativo: árvore de natal de uma família, uma noiva entrando num carro para se casar, uma imagem possivelmente da Internet de um cavalo, a foto de uma tela de TV acusando a ausência de recepção do sinal digital e ainda uma senhora, que em dia de sol, resolveu armar a sombrinha dentro do ônibus. Um grupo de imagens que revela que a usabilidade do aplicativo Tem Você denota, por parte de quem envia material, o não entendimento completo do valor dessa ferramenta disponível como questão produtiva de notícias. A leitura que se pode fazer disto em Vizeu e Silva (2013, p. 404-405):

Entenda-se aqui por coprodução qualquer forma de atuação de não profissionais nos fazeres da notícia, seja por meio de interatividade, colaboração, participação comprometida com o bem comum, com a cidadania ou simplesmente a participação pela participação.

Acima de tudo, entendemos que a revisão de que se precisa na indústria do jornalismo é no tocante à revisão de seu modelo de negócios fazendo com que o público se atraia e saiba qual respaldo realmente terá ao se lançar como coprodutor noticioso. Uma via de duas mãos: por um lado, a imprensa em vez de se institucionalizar como demarcada no horizonte digital e, por outro, o público realmente entender que sua participação não é uma satisfação pessoal, mas sim, um comprometimento em promover a mídia colaborativa.

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FIM DO EMPREGO

No início do século XXI, junto à ESAMC Sorocaba, visitei muitas escolas da Região Metropolitana de Sorocaba divulgando a ESAMC e palestrando sobre o assunto: Desafios para o Século XXI.

Um dos temas que abordava era a diferença de Emprego e Empregabilidade, e já falava que o emprego, como conhecemos hoje (na época, anos de 2001 à 2008) deverá morrer no século XXI.

Hoje (2016) entendo que morrerá muito antes do término do século atual.

Nas palestras, explicava que no século XX as pessoas se formavam em uma determinada área e trabalhavam 30 ou 40 anos na profissão e se aposentavam fazendo quase a mesma coisa, e era comum colocarem seu diploma em um quadro e fixarem na parede como “status” e diziam: Sou formado, nunca mais piso em uma escola. Vou aposentar e o Governo cuida da minha velhice.

No contraponto dizia, nas palestras, que no século XXI o diploma por si só não garante a empregabilidade, e sim o conhecimento, portanto vocês, alunos, não sairão dos bancos escolares: bacharelado, pós, especializações, mestrado, doutorado, enfim, estudar….

Também dizia que o Governo “Papai” terminará, então, cuidem de sua aposentadoria e da saúde, pois o sistema atual não se sustenta, e dias virão que não haverá dinheiro para pagar os aposentados, por isso pago aposentadoria privada.

Atualmente (2016) o grande desafio do governo é promover a reforma da Previdência e da CLT.

Lendo o artigo do Jeff Weiner, CEO do LinkedIn (link abaixo) com a afirmação de Elon Musk (um dos grandes visionários da atualidade), conclui-se que o grande desafio dos governos, a partir de agora, será como sustentar uma massa de pessoas que perderão o emprego em função da tecnologia.

A partir do anos noventa do século XX, quando a reengenharia transformou as indústrias através da automação (informatização e robotização), muitos empregos da indústria foram substituídos pelos empregos nos serviços. Atualmente a automação está também substituindo empregos em serviços, que está entrando em estagnação.

A pergunta que nos incomoda: “Onde irão trabalhar, e garantir seu sustento, tantas pessoas? principalmente os sem qualificação profissional?

Está ai uma preocupação para os sociólogos, economistas, políticos, cientistas sociais e principalmente para os administradores.

Caros alunos, por ora minha dica, não é conselho: estudem, estudem e estudem, e estudem mais um pouco, leiam muito, cuidem do seu repertório. Provavelmente vossos avós e pais trabalharam 40 anos na mesma profissão, provavelmente você mudarão de profissão muitas vezes  e trabalharão em algo que ainda não existe.

Segue o link: Tecnologia vai deixar 5 milhões de pessoas sem emprego até 2020, diz LinkedIn

Abraços e bom estudo!

Prof. Me. Calixto Silva Neto